João Zanata Neto: ‘Manual da vida’

Manual da vida

João Zanata Neto
Da Equipe de Colaboradores

A vida tem ritmo e melodia. A música imita a vida ou a vida imita a música? Não se sabe, mas isto não importa. As duas são as expressões genuínas que derivam do ser humano. A vida é um substantivo abstrato ou uma maneira de dizer que existimos. A vida se dá por vontade e possibilidade. E estas são as duas condições necessárias para a existência do ser humano. A vontade inicial pertence ao alheio. A possibilidade de vida é circunstancial, podendo ser anterior ou posterior, externa ou interna ao ser. A possibilidade é sempre algo custoso que exige sacrifícios próprios ou alheios. A vontade, no entanto, aparenta ser gratuita ou uma decorrência natural do existir. Vontade e vida não se atrelam como se fosse lógico. Pode haver vontade e não ter possibilidade. Pode existir possibilidade e não haver vontade. A vida é a conjugação de dois critérios não excludentes.

Mas a vida não é o desencadeamento normal das vontades e das possibilidades. Ela se assemelha à música porque pode se alegre ou melancólica. Ela tem nuances de expressividade. Ela tem o que poderíamos denominar de elementos motivadores ou desmotivadores. Há em torno dela circunstanciadores externos ou internos que causam acréscimos ou decréscimos na vontade de viver e na possibilidade de existir.

Assim, o doente é o ser com pouca vontade de viver. Então, não há uma doença da vontade, mas sim um doente de vontade. Quem tem pouca possibilidade de viver tem uma doença de possibilidade e não há um doente de possibilidade. A vontade pode curar o doente e a medicina a doença. Contudo, apesar de controverso, afirma-se que a vontade pode curar até a doença. Este aspecto pertence à questão espiritual que estuda os fluidos espirituais. Para o espiritismo só há doentes decorrentes de obsessões ou responsabilidade em existências passadas ou presente.

As circunstancias do mundo externo ou interno que perfazem um doente pode, analisando por outro ponto de vista, filosófico para ser preciso, estar atrelada à fenomenologia. A impressão que temos do mundo externo ou interno se traduz em pensamentos. Cada um tem uma própria realidade, uma ideia particular sobre si e sobre o mundo que o cerca. O pensamento, por esta razão, é o consubstanciador de vontade e até das possibilidades, uma vez que esta pode ser criada.

O pensamento acertado pode criar a vontade com pouco custo. Criando a vontade ele poderá, dependendo do caso, até criar a possibilidade. Tudo isto sem perder a coerência e a plausibilidade das coisas, pode-se através da possibilidade criada satisfazer a vontade e a própria vida. O pensamento coerente, razoável e plausível é o remédio contra as frustrações e o garante da existência. Assim se pensamos certo, existimos. O certo é sempre o grande norte das decisões. A verdade é o melhor remédio contra as incertezas e ilusões que o pensamento proporciona. Se não for certo, não faça, não ordene, não instigue a fazer. Se não for verdade, não diga, não acredite. “A felicidade na vida depende da qualidade dos pensamentos” (Imperador Marco Aurélio).

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

  • Publicado na edição impressa de 29/12/2019
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