Pascoalino: ‘O pai nosso de cada um’

O pai nosso de cada um

Pascoalino S. Azords
Da equipe de colaboradores

Dizem que segunda-feira é o melhor dia da semana para se morrer do coração. Para mim é a sexta-feira. Por isso tenho evitando sair de casa às sextas-feiras. Não quero dar às mulheres que lavam calçada com água tratada mais esse prazer: o de matar um passante. As mulheres que higienizam calçadas e ruas sabem que em algum lugar aquela água irá faltar na panela, no chuveiro ou no tanque de alguém. Mas a tentação é mais forte.

Não sei porque, mas acho que ainda morro numa sexta-feira — atrapalhando o sábado, como o pedreiro que no samba cai da “Construção”. Se o meu palpite não se confirmar, o que se há de fazer? No máximo poderão escrever no meu túmulo: aqui jaz um homem que passou a vida acreditando que ia morrer numa sexta-feira — e errou.

Outra coisa que uma hora acaba comigo é rojão, essa possibilidade daquilo que se convencionou chamar de fogos de artifício, um dos números da pirotecnia — a arte de brincar com fogo. Por isso, os antigos fabricantes eram sepultados como “artistas”. Na verdade, o rojão é uma das formas mais baratas de alguém reafirmar a sua estupidez. O que tanto quer dizer o espocar de um rojão? Quase sempre um foguetório comunica que algo de bom aconteceu. A minha pergunta é: que comemoração vale a perda da vida, da vista ou de um dedo da mão?

Recentemente, o presidente do Peru (do Peru!) proibiu a fabricação e a comercialização de fogos de artifício. Para não ficar atrás, autoridades brasileiras proibiram a venda de álcool líquido no varejo. Decisão difícil, antipopular, que vai desagradar muita gente. Paciência! Proibir a fabricação de fogos de artifício e a venda de álcool no varejo é tão necessário como criar leis que coíbam o desperdício de água e bêbados no volante.

O costume de criar passarinho em gaiola é outra dessas coisas de matar. A televisão (a televisão!) tem veiculado uma advertência para quem cria passarinho em cativeiro: é crime — para dizer pouco. No Peru é capaz de dar até cadeia. Pois na contramão disso tudo vem o Mário Prata fazer a apologia de um passarinheiro.

Poucos jornais podem se orgulhar de publicar o Mário Prata. O centenário O Estado de S. Paulo é um deles. Não leio o Mário Prata, o que não faz a menor diferença: o Brasil inteiro lê. O título ornitológico da sua crônica do dia 27/02/2002, no entanto, chamou minha atenção: “O caçador de bicudos”. Pensei que ele fosse descadeirar um candidato do PSDB, um líder do PCC ou um apresentador da TV. Errei. O “caçador de bicudos” era o próprio pai do cronista.

Tem filho que não se dá com os pais. Paciência. Tem filho que fala mal dos pais. Não é o que se espera de um cronista consagrado. Mas, precisava pôr no jornal? “No começo — conta Mário Prata — meu pai tinha tudo quanto era passarinho. Canário, canário-da-terra, periquito australiano, até uma pentelha de uma araponga. Na nossa casa tinha uns 15 engaiolados”. Fazer o quê? Cada um guarda do pai a lembrança que pode. O filho famoso do historiador Sérgio Buarque de Hollanda diz que até a adolescência, para ele, o seu pai era um som de máquina de escrever.

Um dia, vieram me pedir para ir tirar uma foto no cemitério — era domingo. Na hora do sepultamento, alguém observou que o morto não se deixara fotografar em vida, pois associava o processo químico de fixação de imagens com o fato das pessoas morrerem. Quando cheguei, o caixão estava ao sol, ao lado da cova. Abriram a tampa por um instante para que eu fizesse a foto. Os filhos ficaram muito agradecidos. Agora teriam como guardar ao menos uma lembrança do pai.

Mário Prata tem quatro motivos para lembrar o seu: “Além de médico, rotariano e meu pai, era caçador de bicudos”. Paciência! 

* Publicada originariamente em 10/03/2002

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