João Zanata Neto: ‘Indústria 4.0′

Indústria 4.0

João Zanata Neto
Da Equipe de Colaboradores

Quem visita o site da FIESP verifica um mundo cor-de-rosa da indústria nacional. Muitas inovações e conquistas do setor são noticiadas sem nenhuma modéstia. Inúmeras premiações aos jovens que se profissionalizam podem ser vistas com as merecidas homenagens, principalmente em matéria de robótica. Ilustres palestrantes da era automatizada despejam os conceitos da nova modernidade: a quarta revolução industrial.

A FIESP dissimuladamente proporciona uma plataforma eleitoral aos maiores defensores deste setor. Autoridades do governo nacional e internacional dão lá os seus ares de comprometimento com os assuntos da indústria nacional. São planos e projetos que não deixam dúvidas de que novas propostas para o desenvolvimento industrial serão estudadas, mas a indústria nacional ainda é uma criança no colo de um governo que não lhe tem dado muita atenção.

Há lá, na FIESP, um político que todo mundo sabe quem é. Ele faz bem o seu papel, puxando a brasa para a sua sardinha. Não o desprezo totalmente porque ele tem utilidade, mas ele exagera um pouco e cria uma realidade incompatível com a economia nacional. É preciso dizer-lhe que não é bem assim!

É certo que a automatização tornou-se bem mais barata, levando algumas empresas a mergulhar na quarta revolução da indústria. Mas, na realidade, nem todas as empresas nacionais podem aderir a estes novos métodos de produção totalmente automatizada. É isto mesmo o que eu disse: totalmente automatizadas. E isto eles dizem sem qualquer receio. O panorama agora é propício para as extravagancias do patrão, pois não há um sindicato trabalhista que mereça confiança e a “flexibilização” das leis trabalhistas proporciona a legalidade necessária.

Muitas críticas foram feitas a tal quarta revolução industrial, principalmente em relação ao desemprego enorme que poderá gerar. Mas eles se defendem dizendo que novos profissionais serão contratados para desenvolver os novos sistemas e que, na verdade, muitas oportunidades surgirão. Bastará que sejam formados novos profissionais para as novas profissões do futuro. Isto é balela meu amigo. Os sistemas já estão desenvolvidos e são meramente importados com todo o suporte tecnológico. Para quem se atrever a inventar um novo sistema, de certo recorrerá a empresas terceirizadas com ampla experiência na área.

Se o crédito industrial fosse incentivado pelo governo, poderíamos ter esperança de novas contratações ou estaríamos alimentando uma automatização total que redundaria em desempregos? Parece que não temos saída. A velha ferida do capitalismo está exposta novamente. É simples entender que a produção industrial deve ser consumida de uma forma sustentável, para ser ecologicamente correto, e para que isto ocorra precisa-se de consumidores que tenham poder de compra. O que adianta ter uma indústria automática se só há desempregados sem poder de consumo? Não é bem assim, não é? Há um ponto de equilíbrio, diriam outros. Muita gente será deslocada para o setor de serviços. Imagino que nesta situação relega-se uma maioria a uma condição de pobreza insolúvel.

Mas não é bem assim. Uma indústria totalmente automatizada tem os seus custos reduzidos e maior competitividade. Poderá produzir por preços menores, mas terá que demandar mais negócios para satisfazer o equilíbrio financeiro, ou seja, o mundo estará bem mais poluído do que agora. A economia é bem mais complexa do que estes breves apontamentos, mas o que adianta para a indústria nacional automatizar produtos se ela ainda não tem uma independência tecnológica? Devemos fabricar o que importamos para alcançar uma balança comercial favorável. Se assim não se der, passaremos a ter uma nova dependência: a tecnologia de automação. 

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

  • Publicado na edição impressa de 05/01/2020
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