A filha do ‘seu’ Alziro

O governador Abreu Sodré, ao lado do prefeito Onofre Rosa, se reúne com a família Santos; Terezinha está à esquerda

Professora na zona rural, Terezinha
Blumer foi uma das primeiras mulheres
a conquistar a carteira de habilitação

Filha de político influente, Terezinha sempre teve um perfil independente

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O farmacêutico Alziro de Souza Santos foi um dos mais influentes políticos de Santa Cruz do Rio Pardo. Seu nome se confundia com a UDN velha local, da qual foi uma das principais lideranças. Mineiro, veio ainda jovem para Santa Cruz e começou a trabalhar na farmácia de Luiz Besana. Formou-se farmacêutico em 1927 e virou sócio do irmão Manoel da “Farmácia Santa Cruz”, assumindo depois o controle do estabelecimento. Uma de suas filhas, Terezinha, ainda se lembra da vida política agitada do pai.

Prestes a completar 90 anos, Carmem Terezinha Santos Blumer, uma das filhas do farmacêutico, nasceu em 1930 e acompanhou os principais fatos da história santa-cruzense do século XX. Em 1947, por exemplo, ela tinha 17 anos quando houve a redemocratização do País após a ditadura Vargas. Nas eleições municipais diretas daquele ano, o eleito foi um farmacêutico que, curiosamente, era adversário de Alziro e, anos mais tarde, se tornaria um de seus principais aliados na política. Lúcio Casanova, apoiado pelo deputado Leônidas Camarinha, derrotou o advogado Omar Ferreira.

Dois anos depois, Terezinha se casou com Paulo Blumer e um dos padrinhos foi exatamente Omar Ferreira. O advogado perderia novamente as eleições de 1955 para o próprio Casanova e, desgostoso, deixou Santa Cruz. “Eu me lembro do caminhão com a mudança dele, com alguns móveis quebrados”, disse Terezinha. “Foi triste”.

A derrota de Camarinha só aconteceria em 1959, após um racha no grupo político e a saída de lideranças como Lúcio Casanova, Onofre Rosa de Oliveira, Anísio Zacura e outros. Os dissidentes se juntaram à UDN de Alziro, lançaram Onofre Rosa e venceram as eleições. Terezinha Blumer se recorda da enorme comemoração nas ruas, com uma multidão e carros em passeata.

Apesar de filha de um ilustre político de Santa Cruz do Rio Pardo, Terezinha sempre teve um ímpeto independente. Aos 18 anos, iniciou a carreira de professora. “Comecei no dia do meu aniversário”, lembra. Lecionou na zona rural durante 30 anos, 26 deles no bairro da Grumixama. Nenhuma escola rural sobreviveu em Santa Cruz.

Terezinha, na verdade, seguiu os passos da mãe, Lázara Rodrigues Santos, que sempre foi conhecida como professora “Lazinha”. A mulher de Alziro também lecionou na zona rural, no bairro das Três Barras. “Ela detestava o nome, que foi dado pela parteira. A vaga de professora ela conseguiu do Tonico Lista, que era o prefeito de Santa Cruz”, disse. Lazinha era uma bela mulher, loira de olhos azuis, e encantou o farmacêutico Alziro. “Minha mãe chegou a disputar o título de Miss Santa Cruz”, lembra a professora.

FAMÍLIA — Alziro Santos e a esposa Lazinha (sentados), com os filhos e netos numa pose para o álbum de família

Mas os tempos eram difíceis. Terezinha se valia de charretes ou das antigas “jardineiras”, como eram chamados os ônibus de transporte urbano de passageiros, para chegar ao trabalho. Nos anos em que lecionou no bairro Barreiro dos Mendonça, Terezinha ficava a semana inteira na fazenda de Manoel Mendonça Sobrinho, amigo do pai e ex-vereador.

Um dia, Terezinha decidiu que deveria tirar a carteira de habilitação, o que era raro para uma mulher naquela época. Por conta disso, a professora foi uma das primeiras mulheres de Santa Cruz a receber autorização para dirigir automóveis. “Acho que eu fui a segunda”, diz. Ela teve aulas de direção com uma das filhas do médico Pedro César Sampaio, Laís. O primeiro carro foi um jipe velho, modelo usado na Segunda Guerra Mundial.

A filha do farmacêutico era praticamente a única motorista da casa. “Papai também tinha habilitação, mas cada vez que saía ele derrubava o portão de casa. A gente já tinha um pedreiro contratado para estas ocasiões”, conta, rindo. “Depois, ele desistiu e ficamos aliviados”.

No entanto, quando chovia, as estradas eram um obstáculo para a professora. Terezinha lembra que foram inúmeras as ocasiões em que o carro encalhou. “Aí eu largava ele na estrada e ia a pé. No caminho, ainda encontrava outros carros encalhados”, disse. A classe no bairro rural tinha aproximadamente 70 alunos.

Terezinha se recorda de um momento muito difícil para a família: o incêndio que destruiu a “Farmácia Santa Cruz” nos anos 1950. “Eu estava na cozinha fazendo rosquinhas porque seria o aniversário do Eduardo”, conta a professora, que morava ao lado. “Quando olhei, o fogo estava se alastrando. Foi uma correria e as pessoas se uniram para apagar o incêndio com baldes e panelas. Como a casa também estava ameaçada, jogaram tudo na rua para que não fosse queimado. Depois, tudo foi devidamente devolvido, inclusive meu faqueiro de prata”, conta. “O Dino Lacerda, que era muito forte, derrubou um muro para a retirada dos meus móveis. No entanto, o fogo ficou restrito à farmácia”, lembra.

Foi um drama. Alziro passou a atender na residência, enquanto planejava a reconstrução. Mas não havia dinheiro para comprar remédios. Foi aí que valeu o honrado nome do farmacêutico. “Um dia, encostou um caminhão de remédios na farmácia. Era de um laboratório, que disse ao meu pai para pagar quando pudesse”, conta a filha. 


DRAMA — Incêndio destruiu farmácia nos anos 1950: não havia bombeiros

Farmácia era ponto de
encontro dos políticos

Diploma de 1955: Alziro vereador

Inevitavelmente, Terezinha Blumer conviveu muitos anos com a política dentro de casa. Afinal, o pai, além de líder da antiga UDN, foi vereador durante 16 anos. “Quando jovem, às vezes eu tinha raiva. É que meu pai se dedicava muito à farmácia e, na única hora em que podia estar com a família, ele fazia política”, conta. Com os passar dos anos, porém, Terezinha se acostumou e até começou a seguir o pai nas visitas políticas e até nos comícios.

Quando a eleição terminava, segundo Terezinha, Alziro Santos voltava ao trabalho na farmácia. “Ele não saía nas ruas em caso de vitória. Era comum vê-lo calmamente lendo jornal nestas ocasiões, enquanto o povo comemorava nas ruas”, lembra a professora.

Terezinha teve três filhos, dos quais um, Roberto, é falecido. Além do arquiteto e ex-secretário Marcos Blumer, ela é mãe do ex-vice-prefeito Eduardo Santos Blumer, cujo nome foi dado pelo próprio avô Alziro. “Ele era admirador do brigadeiro Eduardo Gomes e quis muito homenageá-lo”, conta.

O brigadeiro, por sinal, esteve na casa de Alziro quando fez comício em Santa Cruz em campanha para a presidência da República em 1945.

Mas havia outros famosos. “O Sodré [governador Roberto Costa de Abreu Sodré] tomava banho em casa. Ele tinha terrenos na cidade. Quando meu pai morreu, o Sodré mandou uma carta muito carinhosa para a família”, lembra Terezinha.

Segundo ela, o deputado Sylvestre Ferraz Egreja era outro que não saía da farmácia. Isto sem contar os políticos de Santa Cruz, como Lúcio Casanova Neto, Onofre Rosa e “Biju”.

Hoje, Terezinha é viúva, já que o marido morreu em 1985. A centenária farmácia, cuja rua foi batizada de Alziro de Souza Santos por iniciativa do prefeito Aniceto Gonçalves em 1980, já não pertence à família. No entanto, guarda as recordações histórias através de enormes fotografias antigas estampadas em painéis nas paredes. 

* Colaborou Toko Degaspari

“Farmácia Santa Cruz” em 1925, com a rua recebendo paralelepípedos
  • Publicado na edição impressa de 12/01/2020
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