Geraldo Machado: ‘O fumaça’

O fumaça

* Geraldo Machado

Os tios são hoje uma espécie em visível extinção. Os primos ainda resistem a esse extermínio, mas têm os dias contados. É uma pena não te rmos uma ONG para lutar pela preservação deste galho lateral da família. Uma Unicef ou, no meu caso, que sou um tio da lavoura, um departamento especializado do Ibama… Poderiam, os tios sobreviventes deste “El Niño” arrasador, formar uma sigla a mais para arregimentar os sobrinhos, ainda interessados nessa instituição arcaica e obsoleta? Se tentassem uma ligação com essa força imbatível liderada pelo Rainha, que ostenta atrevidamente na camisa, o retrato do Che Guevara? Assim, o MST passaria a ser, paralelamente, o Movimento dos Sem Tios…

Eu tive tios. Grandes amigos, da infância e da mocidade. Eles faleceram e eu envelheci. Os primos, sobreviventes, contam-se a dedos.

Tio Tonico, mais velho que meu pai, me marcou muito. Dele, as minhas primas Zulmira e Isa, foram amigas e até me ensinaram a dançar… Tio Tonico, protótipo do homem generoso, liberal, cordial, amigo dos humildes. Polivalente — quando não estava caçando ou pescando. Deixava sua lavoura de café à meia, com meu pai, ficando livre para fazer aquilo que, na verdade, gostava. E fazia bem feito, com arte. Como hobby era carpinteiro: fazia engenhocas de moer cana, canoas, moinhos de fubá, o que aparecesse — não prejudicando a caça e a pesca. Ferreiro, consertava tudo o que quisesse. Fazia facas e facões, restaurava espingardas e garruchas. E, o melhor, lia. Seu livro predileto era “A Velhice do Padre Eterno”, de Guerra Junqueiro, de quem recitava os belos alexandrinos de cor. Lia romances de capa-e-espada e cavalaria. Era um poeta. Conhecia a mata e o Paranapanema, com suas corredeiras e poços, com a maior intimidade. Que saudades das pescarias com meu tio, de canoa, nas minhas férias escolares de dezembro. No inverno, férias de junho, caçava capivara. Os tios de hoje, não pescam e não lêem Guerra Junqueiro…

Exímio caçador, no tempo que aqui era sertão, tinha muitos cães de caça e, como tratá-los quando não caçava? Fez, com a sua habilidade, um moinho de fubá, e assentou-o numa queda d’água que, nas secas, era de pouco volume. Um vez, vendo o Tio Tonico descer com um saco de milho para moer, Tio Quincas, irmão mais novo, disse-lhe: — “Tonico, não leve cachorro com você; ele bebe água lá em cima e vai parar o seu moinho lá embaixo…” O caçador fez-se de desentendido, mas não gostou do humor. Com o fubá, fazia o angu para tratar da matilha de veadeiros e paqueiros.

O nosso herói canino desta história, atendia pelo nome de Fumaça. Era de pelagem cinza; excelente caçador de veados — mestre sem rival. Ficou velho e, como o Homero da Ilíada e da Odisséia, cego. Como o poeta épico, deu de andar. O grego, de cidade em cidade. O veadeiro, de casa em casa. Seus olhos ficaram brancos de tanta batida de cipós e ramos, nas corridas que fazia perseguindo a caça. Quando era atiçado n’algum lagarto, Fumaça simplesmente gania. Não se abalava, na sua nobreza e no seu “ócio com dignidade”. Não iria, esse mestre da matilha, correr atrás de lagarto comedor de ovos, nem correr atrás de frangos para a patroa fazer no almoço. Teve, o Fumaça um final feliz — morreu.

Morreu no sertão o Fumaça, sem veterinário para as suas mazelas; morreram os pescadores, sem médicos para as suas maleitas! Longe de mim querer sensibilizar o leitor com estas pieguices mal alinhavadas e mal virguladas. Ficou viva a cainçalha que não come angú — come caviar. Essa matilha dos Nayas, dos arrombadores dos cofres das viúvas do INPS, que depois de ricos ainda fogem para a Costa Rica, ficarão presos somente nas suas imunidades. Lembra Guerra Junqueiro, falando dessa classe abjeta: “Lançado a um monturo, faria nódoa”…

E nós, mais cegos que o Fumaça, votamos nessa malta. Já é tempo de tirarmos essa “fumaça” dos olhos e caçá-los” na hora de votar, para não ser preciso cassá-los depois de obesos da farsa e do roubo.
Numa homenagem, que valha como um epitáfio a esse cão fiel, ninguém mais certo do que o imortal Guerra Junqueiro, no “O Fiel”, de beleza perene — o belo, desconhecido dos adolescentes de hoje, do U2…

“Percorria de noite os
bairros da miséria
À busca dum jantar
E ao ver surgir da lua
a palidez etérea
O velho cão uivava
uma canção funérea
Triste como a tristeza
oceânica do mar”… 

* In memoriam

* Publicado originariamente em 2018

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Proprietário e Editor do Jornal Debate