Artigo: ‘Sem vergonha de ser feliz′

Sem vergonha de ser feliz

Nayara Moreno
Da equipe de colaboradores

Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Esse lindo verso do compositor Gonzaguinha deve ser usado como inspiração e aconchego para aquele idoso(a) que passa os dias cuidando de sua esposa(marido) doente. Talvez você que lê essa coluna agora esteja passando exatamente por isso ou conheça alguém bem próximo que teve sua vida após os 60 anos alterada por conta de uma grave doença que atingiu uma das pessoas mais amadas.

A rotina de um idoso que tem de cuidar de outro é bastante desgastante física e psicologicamente. Muitas vezes, aliás, a pessoa que assume esses cuidados não tem mais condição e estrutura física para lidar com essa difícil e pesada (literalmente) missão. Mesmo assim, o marido(esposa) faz todo o esforço do mundo e acaba, não é raro, até lesionado.

Mentalmente também não é nada fácil ver aquela pessoa com quem você passou a vida toda ficando cada vez mais debilitada e distante da imagem de quando se conheceram. Isso traz um grande cansaço que pode levar à depressão. É fundamental que este idoso tenha momentos de descanso, lazer e vida social. É algo até óbvio, certo?

Mas infelizmente não é assim. Em alguns casos a própria família torce o nariz quando o idoso(a)/cuidador(a) manifesta o desejo de respirar, nem que seja por um fim de semana, novos ares. “Como assim deixar a mamãe/papai?”, questionam, egoístas que são, sem saber o que é trocar uma fralda geriátrica. Vizinhos e “amigos” se espantam e cochicham por aí que o idoso(a) está sendo abandonado(a). Nada pode ser mais cruel com quem dedica praticamente todos os minutos de sua vida a cuidar.

O idoso deve prezar pela sua saúde mental e física. Viajar, visitar amigos, sair para tomar um café são atividades para se manter ativo e com a mente sã. Afinal, são tão raras essas oportunidades que devem ser aproveitas com leveza e, principalmente, sem o menor sentimento de culpa. Atividades externas para o idoso que vive a rotina puxada dos cuidados é essencial, inclusive, para que ele possa se renovar e dar ainda mais atenção e carinho ao enfermo.

Na sua ausência, enfermeiras ou familiares podem assumir suas tarefas diárias para que aquela pessoa possa descansar em paz. O que é inaceitável é a família, a sociedade e os próprios fantasmas que rondam a cabeça do idoso crucifica-lo por este deixar rapidamente de lado a rotina maçante de cuidador para cuidar da própria vida.

É importante viver e não ter a vergonha de ser feliz. Mesmo que seja por alguns instantes. 

* Nayara Moreno
é enfermeira
pós-graduada
e Responsável
Técnica
pela AleNeto
Enfermagem 

  • Publicado na edição impressa de 12/01/2020
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Proprietário e Editor do Jornal Debate