João Zanata Neto: ‘Filosofia da bondade′

Filosofia da bondade

João Zanata Neto
Da Equipe de Colaboradores

É preciso se reportar a alguns fatos da vida com atenção e cautela. Não temos o dom de sempre agradar o interlocutor. Tal façanha, se atribuída a alguém, só pode ser algo irrefletido. Isto tem cheiro de falsidade. É impossível estar sempre de acordo com as ideias alheias.

A interação entre as pessoas exige uma diplomacia intuitiva. Aliás, hoje em dia, a diplomacia está fora de foco em razão dos frequentes entraves nas relações internacionais causados pela irracionalidade de alguns líderes mundiais. No plano pessoal, as implicações não são tão graves, exceto naquelas decorrentes de extremistas de toda a natureza.

Isto nos faz pensar sobre o mal como o estado inicial do ser. A bondade é algo que se vai adquirindo à medida que se expurga o mal. É difícil imaginar o ser primitivo e o seu teor de maldade quando já estamos com certa dose de bondade. A humanidade que trazemos só percebe agora o quão é absurda a maldade.

Mas não podemos falar da maldade. Não devemos enfatizar a negatividade. Os nossos esforços devem se ater ao que é bom. Contudo, o bem e o mal parecem ser como a luz e a sombra. São conceitos ou ideias interdependentes. Seria possível perceber a luz sem a ocorrência da sombra? É impossível ao ser ter a noção independente da luz, pois ela se fez muito antes do ser existir. Porém, o valor bom e mal nasceram juntamente com o ser. No princípio o ser era todo mau. O bem que se produziu decorreu da atenuação do mau.

Rousseau afirmou que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. No entanto, peço licença para discordar do ilustre pensador, pois, para mim, o ser nasce em um estado de torpor e o tempo o faz despertar dentro de si a maldade que lhe é inata. A sociedade como agente catalizador civilizatório pode produzir o bem e ou o mal, dependendo do seu conteúdo humanizador. Ela é um simulacro da pacificação, pois se pauta pela dominação da vontade e produz um falso estado de bondade que não passa de uma aceitação circunstancial, ou seja, a noção da impotência ante a exploração que o subjuga.

A cristianização foi o despertar da bondade, a resistência capaz de desmantelar as civilizações e toda a maldade que dela provém. A consciência de que o bem era possível fez nascer a esperança de um mundo melhor. Contudo, a história das civilizações fez prova contundente da grande dificuldade ou quase impossibilidade de se atingir a bondade em todos os cantos do planeta. A origem da grande desilusão da cristandade se deve a esta sensação de bondade inatingível.

O mundo se polarizou em pensamentos políticos, religiosos e ateístas. No entanto, tais pensamentos se mesclam com propósitos de convencimento. Não há um pensamento político puro, uma religião isenta de política ou um ateísmo livre de todas as influências. A política pura, a religião verdadeira e o ateísmo independente só se encontram no pensamento filosófico. A grande fonte capaz de despertar a bondade está no pensamento filosófico. A cristandade foi, antes de tudo, uma filosofia da bondade. 

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

  • Publicado na edição impressa de 12/01/2020
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