‘Salgadinhos’ de volta às lentes

IMAGENS DO BAIRRO — Crianças da “Bom Jardim”, durante a sessão de fotos no bairro em que moram

Idealizado pela coordenadora do Cras
‘Betinha’ Antiela Carrijo, projeto
busca valorizar o espaço da comunidade

André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Pode parecer loucura, mas é possível que vários “Sebastiões Salgados” estejam escondidos em pequenas casas na vila Bom Jardim. Coordenadora do Cras ‘Betinha’, a psicóloga Antiella Carrijo Ramos acredita nesta possibilidade. Ela acaba de retomar o projeto ‘Salgadinhos’, que foi bem-sucedido na vila Divineia, durante o projeto “Fala Vila”. O objetivo é dar .câmeras fotográficas a jovens e crianças que desejam testar suas habilidades artísticas.

São cerca de 20 ‘Salgadinhos’ que participam do projeto na Bom Jardim. Eles registraram, na quarta-feira, 15, momentos que consideram únicos — ou particulares — da vila onde moram. “Fotografe aquilo de que você mais gosta. É essa a orientação que damos aos inscritos”, explicou Antiella.

As fotos ainda estão em processo de preparo e seleção, mas devem vir ao público até fevereiro. Antes de a oficina de fotografia acontecer, os ‘Salgadinhos’ têm uma breve introdução à história da atividade. Claro que também descobrem quem é Sebastião Salgado, brasileiro considerado um dos maiores fotógrafos do mundo.

Os ‘Salgadinhos’ seguem a mesma linha de seu mentor: a tonalidade preto-e-branca. Só não usam a tradicional Leica, câmera que Salgado usou por várias décadas, pois o orçamento não permite.
Duas líderes da vila Divineia, onde o projeto aconteceu na primeira vez, também acompanharam o ‘Salgadinhos’ na Bom Jardim.

“VETERANO” — Eduardo Silva de Oliveira, 14, já fez curso de fotografia e participa do projeto do Cras Betinha

A santa-cruzense Fernanda Botelho, fotógrafa que atualmente mora no Canadá, também participou das atividades. Ela vai acompanhar os trabalhos durante o período em que vai permanecer em Santa Cruz.

Se a oficina começou com a maioria dos ‘Salgadinhos’ tímidos, querendo entender ainda o motivo pelo qual estavam ali, ela acabou com vários sorrisos nos rostos. “É um projeto que muda a visão de quem participa”, diz Antiella.

Eduardo Silva de Oliveira, 14, por exemplo, é um dos ‘Salgadinhos’ que participaram da oficina. Seu pai é pedreiro, mas ele quer seguir a carreira artística. “Me vejo como cantor”, disse. Gosta de gospel e sertanejo e canta na igreja que frequenta.

O primeiro contato de Eduardo com a fotografia aconteceu no Centro Social São José, o ‘Frei Chico’, onde passou a ser o escolhido para retratar as atividades dentro da instituição. “Como sabiam que eu gostava de tirar fotos, me chamavam”, explica.

Eduardo também fez um curso de fotografia oferecido pela empresa Special Dog. No ‘Salgadinhos’, ele diz ter atingido seus objetivos. “Meu bairro é caracterizado por pessoas felizes, mesmo com pouco dinheiro. E eu aprecio isso”, conta. Segundo ele, moradores da Bom Jardim também possuem muita harmonia entre si. “Todo mundo se ajuda”, resume.

A coordenação da oficina de fotografia não interferiu na escolha das cenas a serem retratadas. “Demos a liberdade para que os ‘Salgadinhos’ descubram as suas habilidades. Assim o projeto flui melhor”, diz Antiella.

Para ela, dar essa liberdade aos participantes significa respeitar seus lugares. “Cada um tem sua maneira de ver o bairro onde mora. Não se pode determinar como a fotografia será feita. A ideia parte do próprio ‘Salgadinho’”, comenta.

IDENTIDADE — A psicóloga Antiella Carrijo é a coordenadora do Cras

‘Cras Betinha’

À frente do Cras Betinha há vários anos, o trabalho de Antiella Carrijo Ramos é aplaudido por quem vê de fora. Ela dirigiu o documentário “Fala Vila”, que retrata a história da Bom Jardim. No longa-metragem, líderes históricos são retomados e personagens do bairro relatam a saída da extrema pobreza desde o processo de desfavelamento, conduzido pelo ex-prefeito Clóvis Guimarães Teixeira.

Antiella também deu palestras na Unesp, em Bauru, sobre o serviço prestado pelo Cras Betinha. “O caminho é o assistencialismo. Não se pode reproduzir a lógica da pobreza, mas a lógica da própria população”, diz a psicóloga. 

  • Publicado na edição impressa de 19/01/2020
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