Pé na estrada, com as unhas feitas

Ela é bela, nem um pouco recatada e é da estrada. A gaúcha Sheila Marchiori, 37, dirige sua enorme carreta Scânia rosa

Caminhoneira, gaúcha e youtuber,
Sheila Marchiori esteve em Santa Cruz
na terça-feira para carregar a carreta

EM CASA — A Scania de Sheila não tem o rosa apenas na lataria, mas a cabine também é decorada com a cor

André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Ela nunca brincou de boneca. Nascida e criada no interior do Rio Grande do Sul, em Lagoa Vermelha, sempre conviveu com os irmãos, todos homens. Talvez por isso, sonhava com as estradas desde a infância. Pela falta de oportunidades, entrou para o ramo tardiamente, há dez anos. Cinco anos atrás, criou o canal no yotube “Sheila Bellaver”, no qual compartilha suas experiências cotidianas. Ela é Sheila Marchiori, 37, a caminhoneira que voltou a Santa Cruz do Rio Pardo na terça-feira, 20, para carregar alimentos em sua carreta Scânia de câmara fria.

Claro que não deixou de chamar a atenção. Seu caminhão é inteiramente customizado. A lataria é pintada na cor rosa e foi encomendada diretamente da fábrica. Sheila fez alguns ajustes durante o tempo. Na cabine, quase tudo é da mesma cor — a sua preferida.

A caminhoneira não deixa passar despercebida sua origem. Marcada pelo acentuado sotaque gaúcho, Sheila também não passa um dia sem preparar o tradicional chimarrão, bebida à base de mate e preparada em uma cuia. A loira não deixou de apreciar o mate nem mesmo quando fazia longos percursos, como viagens ao Nordeste.

Marchiori trabalhou durante dez anos na Bellaver, empresa pela qual ficou conhecida no youtube, plataforma em que mantém o canal “Sheila Bellaver”. Aliás, ela tem nada menos do que 1,5 milhão de inscritos.

‘TUDO ROSA’ — Até a Bíblia que Sheila leva na carreta tem capa no tom rosa

Hoje, embora autônoma, Sheila não se desvinculou da Bellaver. É agregada à empresa, que a contrata como prestadora de serviços. Mas sua saída não foi nada fácil: num vídeo, intitulado “Despedida da Bellaver”, a caminhoneira não escondeu as lágrimas. Os 18 minutos de produção renderam a ela 1,7 milhão de visualizações e outras 94 mil curtidas.

Casada, o marido também é caminhoneiro. Por sinal, ele esteve em Santa Cruz na terça-feira pela manhã. Eles vieram juntos do Sul do País, encontraram-se em Curitiba e subiram para São Paulo. Sheila tem quatro filhos — dois dos quais gêmeos, que estão com 20 anos.

Com seu Scania, a caminhoneira percorre cerca de mil quilômetros diariamente. Dorme e acorda dentro do veículo, e garante nunca ter sofrido nenhum tipo de assédio na estrada, já que a maioria dos caminhoneiros é masculina. “É como uma família. Todos se respeitam”, conta.

No entanto, quando o assunto é família, Sheila parece estar sozinha no amor pela estrada. Seu pai, por exemplo, nem carteira de motorista para veículos pequenos tem. “Que dirá grande”, brinca Sheila. Todas as noites, a caminhoneira recebe, angelicalmente, uma ligação com DDD gaúcho, e já sabe de quem se trata. “Oi, mãe. Está tudo bem”, diz ao atender.
Nos dez anos de estrada, Marchiori aprendeu muito. Conhecimento mecânico é o que não falta. “Com o tempo, você precisa aprende de tudo. Tem de lidar com as várias situações”, explica. “Hoje eu dirijo um caminhão novo, mas não foi sempre assim”, completa.

Sheila com sua enorme carreta, na tarde de segunda-feira, em S. Cruz

Se Sheila aprendeu com a experiência nas estradas, com certeza descobriu lições na vida como influenciadora digital. Ela diz ter muita cautela sobre o que vai falar nas mídias digitais, pois sabe que, “querendo ou não”, afeta a vida das pessoas.

“Não vou passar nenhuma imagem negativa do que é ser caminhoneira. O ramo tem seus defeitos, como qualquer outra profissão. Mas se vou influenciar alguém a seguir a carreira, que seja um bom profissional”, diz. Ela não deixa de ser inspiração para outras mulheres que querem, como ela, viver na boleia.

Mas Sheila também alerta sobre os perigos. Há dois anos, sofreu um acidente em Caxias do Sul-RS, na véspera do Natal. Tinha acabado de carregar a carreta. Dez quilômetros à frente havia combustível na pista, onde seu caminhão escorregou e quase caiu barranco abaixo. Ela saiu ilesa, mas o caminhão sofreu praticamente perda total.

Mas há situações hilárias. Em outra ocasião, Marchiori dirigia seu veículo em baixa velocidade numa subida quando, distraída, viu dois revólveres contra ela. Era um assalto. Quando os ladrões invadiram a cabine a fim de roubar a carga, um deles olhou para ela e exclamou: “A Sheila, não!”. E sumiram do mapa. 


A fã de Santa Cruz que se tornou amiga

Moradora em Santa Cruz do Rio Pardo, Iara Priscila Tavares, 32, conheceu Sheila através do Youtube. Quando a caminhoneira fez uma transmissão ao vivo a partir da cidade, Iara foi alertada pelo filho de que a celebridade estava em Santa Cruz. “Na mesma hora já me dirigi ao local”, conta. E se tornaram praticamente irmãs.

Vendedora, Iara ainda sonha em viver na boleia. Ela almeja puxar cargas perigosas. “Quanto mais perigosa, melhor”, conta. Mas ela não quer o rosa: gosta é da cor azul. Assim como Sheila, a vendedora também é casada com um caminhoneiro. Além disso, um filho também quer seguir o caminho.

Sheila e Iara vivem trocando mensagens no WhatsApp, inclusive alguns desabafos e confidências. “Eu evito. Sei que a vida dela é corrida, mas estou sempre ali”, diz, rindo.

A santa-cruzense conhece quase todas as histórias da amiga. De vez em quando, cede um de seus cômodos para a influenciadora dormir. “Mas ela prefere o caminhão, precisa cuidar dele”, afirma. Em contrapartida, Sheila aceita ter as roupas lavadas na casa de Iara. Tamanha é a amizade entre as duas que Iara, aliás, divide a cuia para tomar mate. “Aprendi a gostar”, garante. 

  • Publicado na edição impressa de 26/01/2020
Sobre Sergio Fleury 5976 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate