Morre o ex-prefeito Celso Pinheiro

Advogado e ex-prefeito são-pedrense por dois mandatos, Celso Novaes Pinheiro morreu na manhã de sexta-feira, 14, aos 88 anos

Nascido em Santa Cruz do Rio Pardo,
chegou em São Pedro em 1965 e,
12 anos depois, já era o prefeito da cidade

Nos últimos anos, Celso viveu das lembranças de uma trajetória marcante

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Prefeito de São Pedro do Turvo por dois mandatos (1977-1983 e 1989-1992), o advogado Celso Novaes Pinheiro morreu na manhã de sexta-feira, 14, após sofrer complicações na saúde. Ele tinha acabado de completar 88 anos e há algum tempo estava com sinais de Alzheimer. O corpo de Celso Pinheiro foi sepultado no cemitério municipal no final da tarde. O prefeito Marquinho Pinheiro decretou luto oficial por três dias na cidade. “Celso deixa um legado inestimável para nossa cidade”, escreveu o prefeito nas redes sociais.

Celso não apenas contribuiu politicamente com São Pedro, onde foi um dos principais líderes contemporâneos, mas também como professor, jornalista, escritor, poeta e artista plástico.
Nasceu em Santa Cruz do Rio Pardo e trabalhou na rádio Difusora. Chegou a São Pedro em 1964, como professor da escola “Homero Calvoso”, e acabou ficando.

Muito antes, Celso Pinheiro foi jornalista, colunista de grandes jornais — como “Jornal do Comércio”, “Jornal do Brasil”, “Diário de Notícias”, revista “A Cigarra”, entre outros. Amante das artes, foi aluno do pintor Iberê Camargo e se tornou um artista plástico. Ilustrou livros de autores conceituados e realizou várias exposições pelo interior do Estado.

Professor universitário, começou desde cedo a difundir cultura em São Pedro. É de Pinheiro, por exemplo, o hino oficial da escola “Professor Homero Calvoso”, de São Pedro do Turvo, além de inúmeras poesias.

Como professor de Língua Portuguesa, marcou gerações com aulas poéticas e inovações, como incentivar o teatro numa pequena cidade do interior. Mas Celso também lecionou em outras escolas da região, inclusive no distrito santa-cruzense de Sodrélia, onde ousou criar grupos teatrais de alunos.

Nos anos 1970, voltou a praticar o jornalismo, como correspondente em São Pedro do jornal “O Lanterna”, de Santa Cruz do Rio Pardo. Começou a denunciar a “velha política”, sofreu pressões e resolveu, então, enfrentar os “coronéis” dentro do próprio jogo, ou seja, tornou-se candidato.

Prefeito novamente nos anos 1990, Celso Pinheiro participa de reunião com autoridades agrícolas em Ourinhos

Elegeu-se, portanto, prefeito de São Pedro do Turvo na primeira eleição da qual participou. No cargo, promoveu uma revolução na forma de administrar e fazer política. O curioso é que teve o apoio de um jovem morador, cuja liderança estava florescendo na cidade: José Carlos Damasceno. Anos depois, numa época em que não existia a reeleição, Celso não quis indicar Damasceno como seu candidato, apostando por outro nome. Damasceno foi para a oposição e venceu as eleições de 1982.

Surgia, então, dois novos grupos políticos em São Pedro. Em 1988, na sucessão de Damasceno, Celso Pinheiro deu o troco e venceu as eleições. O adversário espalhou uma música comparando Celso a um “galo velho”. O sábio professor aproveitou a “deixa” e lançou o galo como símbolo de sua campanha. “O galo cantou em São Pedro”, foi a manchete do DEBATE de 1988, estampando a vitória eleitoral de Pinheiro.

Foi neste período que a cidade completou um século de emancipação e o prefeito decidiu enterrar num monumento, em praça pública, uma “cápsula do tempo”, com objetos da época e com a determinação de só ser retirada um século depois — portanto, no final do século 21. Além de vários documentos, moeda e fotos, Celso fez questão que uma edição do DEBATE também fosse colocada na cápsula.

Há quatro anos, Celso e Damasceno se reconciliaram, já com o “professor” — como Damasceno sempre se referiu ao adversário político — “aposentado” na política.

RETORNO — Celso Pinheiro comemora a vitória eleitoral em 1988, acompanhando a contagem de votos em frente ao Ginásio de Esportes de Santa Cruz

Ativista

Celso Pinheiro também era uma espécie de ativista pelas causas justas da região. Em 2005, por exemplo, ele fez uma defesa contundente da escola “Leônidas do Amaral Vieira”, de Santa Cruz do Rio Pardo, que estava ameaçada de ser extinta por uma reforma do Governo do Estado.

Para comemorar seus 80 anos, família publicou um livro de Celso

Professor na instituição durante anos, ele se uniu ao DEBATE e aos colegas João José Corrêa e Celso Fleury Moraes numa campanha a favor do “Leônidas”. “Não acredito no sucesso da obscura empreitada. Ciosa de seu patrimônio cultural, de que o Leônidas é a semente mais fecunda, Santa Cruz do Rio Pardo se porá em brios na defesa de sua mais cara instituição”, escreveu Celso Pinheiro na época.

Celso terminou seu segundo mandato avisando que estava deixando a política. E cumpriu, pois nunca mais se candidatou. Mas é claro que a política nunca deixou Celso, que sempre foi procurado por candidatos ávidos em pegar carona no seu prestígio político.

Celso Pinheiro foi casado em primeiras núpcias com Olga Maria Carrasco Pinheiro, com quem teve os filhos Maria Carmem e Leonardo. Viúvo em 1959, ele voltou a se casar com a professora Martha Camargo Pinheiro, tendo outros dois filhos: Anna Letycia Camargo Pinheiro Felisberto e Bethânia Camargo Pinheiro.

Há anos, começou a ficar debilitado. O Alzheimer o acometeu, mas ainda tinha momentos de lucidez. Morreu na sexta-feira e deixou um legado que dificilmente será preenchido em São Pedro do Turvo. 

  • Publicado na edição impressa de 16/02/2020
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