‘É impossível desvincular os pais da escolha profissional dos filhos’

Em conversa descontraída, Priscila afirma que o tradicional teste vocacional já não é mais recomendado: “Tira a responsabilidade de escolha dos jovens”

Para a professora e psicóloga Priscila Figueira,
pais são fundamentais no momento da decisão,
mas têm o papel de orientar, e não forçar a escolha

André H. Fleury Moraes
Da reportagem local

A adolescência é, talvez, a fase mais sensível na vida das pessoas. É a época dos romances, das novidades, mas também é o tempo de se escolher a profissão que deseja seguir na vida adulta. Professora no Colégio Camões há 12 anos, e também psicóloga, Priscila Figueira, 40, conversou com a reportagem na noite de sexta-feira, 14. Entre outros assuntos, comentou a influência dos pais na escolha profissional dos filhos: disse que varia. Também explica que não é recomendável forçar o jovem a cursar determinada faculdade. E admite que a escolha do curso, por acontecer precocemente, pode ser imatura.

Existe uma influência dos pais na escolha profissional dos filhos? Qual o tamanho dela?
Sim, com certeza ela existe. A proporção é variável. A ideia de trabalho que os filhos têm, na verdade, vem dos pais. A criança acompanha o trabalho dos pais desde cedo, e naturalmente cria uma impressão sobre isso. É impossível desvincular a ideia de escolha profissional da ideia de família.

Alguns filhos são forçados a escolher determinados cursos. Existem riscos nisso?
É compreensível que isso aconteça. Há uma preocupação de cunho financeiro com a vida adulta do filho. Como eu disse, é impossível que a família esteja desvinculada desse processo. Mas o papel dela deve ser o de apoiar, informar e ajudar os filhos a buscar informações. Se forçado a cursar determinada área, o jovem pode ser um profissional frustrado. Também há o risco de que as próprias relações familiares se estreitem, já que o filho talvez fique ressentido.

Essa frustração gera outros problemas?
Sim. O estreitamento nas relações familiares é apenas um dos riscos. Há outros: o jovem pode, por exemplo, sequer terminar o curso a que foi forçado a fazer. Pode ficar migrando de faculdade em faculdade e não se encontrar em nenhuma delas. Até porque, em geral, o adolescente escolhe muito cedo o curso que pretende fazer.

A decisão precoce sobre o curso pode ser uma escolha imatura?
Muitas vezes ela é. O adolescente recebe muita pressão, sobretudo familiar, para decidir seu futuro profissional. Mas cada um tem seu tempo. É preciso respeitar isso. Um ano de espera pode ser esclarecedor para o jovem. Não precisa, necessariamente, sair do Ensino Médio e já ir para a universidade.

Muita gente procura os chamados testes vocacionais quando estão indecisos. Ele é recomendado?
O teste vocacional, que antigamente era muito cobiçado, hoje é visto como parte de um processo mais amplo. Até porque, querendo ou não, ele tira a responsabilidade da escolha do estudante. O ideal é que haja uma orientação vocacional — pelo qual o jovem descobre suas verdadeiras habilidades.

E se há indecisão, com certeza há jovens decididos sobre aquilo que querem para a vida. Neste caso, o ideal é deixá-lo seguir?
Se a pessoa demonstra um interesse imenso por determinada área, o apoio àquilo que ela deseja se torna indispensável.

O sucesso financeiro dos pais, ou o fracasso, também é um fator de influência?
Pode ou não ser. É importante que os filhos saibam que em toda profissão tem aqueles que se saem bem e vice-versa. Por outro lado, é preciso levar em consideração aquilo que se considera sucesso. Até porque nem todo mundo pretende ganhar dinheiro, mas gostar daquilo que faz. E, muitas vezes, é o gosto pela profissão que leva ao sucesso financeiro.

Existem cursos ainda considerados tabus? Aqueles que os pais relutam em aceitar que os filhos façam?
Vários deles. E o principal motivo dessa intolerância é o fator financeiro. Os pais se preocupam na maneira como o filho vai ser visto na sociedade.

Algumas faculdades são estigmatizadas aos respectivos sexos. O homem que quer cursar moda, por exemplo, pode ser tachado de homossexual. Isso é um problema?
O preconceito ainda existe, infelizmente. Mas hoje nós vemos cada vez mais homens entrando em cursos que eram reservado às mulheres. E o contrário também acontece. É um processo tímido, mas essa discriminação vem sendo combatida. O jovem, hoje, é mais ativo politicamente, tem mais reivindicações. Eu venho de uma geração muito morna, que aceitava as coisas. E isso tem mudado. 

  • Publicado na edição impressa de 16/02/2020
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