Biblioteca Pública Municipal só tem 0,0084% do orçamento para 2020

Orçamento para Biblioteca não chega a 0,01% em 2020

Em dois anos, apenas 121 novos livros
chegaram ao espaço, 
que também não tem
acessibilidade a cadeirantes ou surdos

André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Enquanto o prefeito Otacílio Parras (PSB) desembolsa R$ 54 mil para propaganda volante e reserva R$ 2 milhões para eventuais condenações judiciais, o orçamento que destina à “Biblioteca Municipal Abílio Fontes” para 2020 é pífio: R$ 14 mil para o ano todo. O valor corresponde a 0,0084% do orçamento anual, que é de R$ 165 milhões.

É um recurso 44% menor do que o orçamento que foi previsto para a repartição no exercício de 2019, de R$ 25 mil.

Goteiras, telhas quebradas e cômodos abandonados comprometem a estrutura do prédio construído em 1910, quando o coronel Tonico Lista ainda comandava a cidade.

Não há ares-condicionados. Alguns ventiladores nem sequer funcionam, e funcionários levam o equipamento de suas próprias casas. Afinal, o imóvel de 125 metros quadrados, nos dias mais quentes, chega a ser sufocante.

Aos fundos, uma enorme tela em que está desenhada o prédio original da “Escola Normal” de 1928, onde hoje funciona a repartição, está esquecido num canto.

Segundo Adriana Vieira, maioria dos frequentadores são jovens e idosos

O problema é que o orçamento previsto abrange a compra de equipamentos, obras, instalações e material de consumo. Isso torna inviáveis reformas efetivas no prédio.

A bibliotecária Adriana Vieira de Aguiar, 43, coordena a biblioteca pública há dois anos. Ela já trabalhou em outras repartições culturais no Estado e diz que o movimento de leitores, em Santa Cruz, “é regular”, mas ainda pequeno se comparado a bibliotecas de outras cidades.

O acervo desatualizado desanima os frequentadores da biblioteca, que, segundo Adriana, buscam as publicações do momento.

A última vez em que a secretaria de Cultura comprou livros novos para a Abílio Fontes foi em 2019.

Nos últimos dois anos, apenas 121 novos livros foram comprados pela prefeitura. Enquanto isso, a média de empréstimos de livros no mesmo período chega a 3.445.

Dados oficiais indicam que o prédio tem um acervo de 11.902 livros. Mas Adriana cita que o número “com certeza” é menor, já que algumas pessoas emprestam livros e nunca mais devolvem. Outras publicações desapareceram. Além disso, faz tempo que não há uma recontagem das obras.

Um desenho da antiga “Escola Normal”, onde hoje funciona a biblioteca, está aos fundos da repartição pública

A maior parte dos frequentadores são jovens que cursam o Ensino Médio e idosos. Juntos, eles compreendem 50% do total. O resto abrange crianças, profissionais com Ensino Superior e outras pessoas.

Cadeirantes não costumam ir à biblioteca. Embora o prédio conte com uma rampa de acesso, não há banheiros adaptados. Cegos são excluídos, já que inexiste roteiro em braile. Pessoas surdas sequer podem ser recebidas, já que o local não conta com funcionários capacitados para atendê-los.

Estudantes do Ensino Médio costumam ir ao local por causa das leituras obrigatórias da escola e de vestibulares. O problema é que não há muitos exemplares do mesmo livro, o que aumenta a concorrência por um único título.

Mas a compra de novas edições também é complicada. A falta de livrarias na região torna mais burocrática a tomada de preço. “Algumas livrarias nem sequer gostam de participar do processo porque não têm muito lucro”, diz Adriana.

O processo para se emprestar um livro da biblioteca é simples. Basta realizar um cadastro apresentando documentos pessoais e comprovante de endereço — a versão eletrônica também é aceita. O prazo para a devolução é de uma semana, podendo ser renovado.

A repartição conta com três funcionários — a bibliotecária Adriana e outros dois auxiliares. Há apenas uma sala para estudos e em seu interior existe uma única mesa.
A falta de recursos torna inviável a elaboração de projetos culturais.

Em Garça-SP, cidade da região de Marília cujo contingente populacional é semelhante ao de Santa Cruz (44.532 segundo o último Censo), a biblioteca municipal frequentemente promove Feiras do Livro. E há pelo menos 15 mesas de leitura. 

  • Publicado na edição impressa de 23/02/2020
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