Geraldo Machado: ‘O gemido da ovelha’

O gemido da ovelha

* Geraldo Machado

“Que extensão do eu a
esta caneta. Assim que a tomo
na mão — como uma vara
de condão — deixo de ser a
pessoa confusa, enrolada e
grosseira que sou”. (John Steinbeck)

Ontem, pela manhã, eu saí para andar ao deus-dará, sem rumo, sem rua, sem propósito. Estava bem fria a manhã e a noite mal dormida foi a mais comprida do ano — 25 de junho. Quisera eu ser como os moços que encontrei pelo caminho, livres e descuidados do frio. Isto é coisa de velho, mormente com aquele que, como eu, padeço de labirintite.

Vacilante no andar como marinheiro das velhas naus portuguesas, titubeante como bêbado no convés daquelas cascas de noz. Evitei a rua do centro, a do comércio, com as suas calçadas estreitas, com lojas espremidas e geminadas, onde dá para contar nos dedos uma fresta por onde passar sem as “cotoveladas” ocasionais. Estacionamento, pode-se dizer, não há. Há uma fila de carros de cada lado da rua, de uma só mão — menos as bicicletas que não respeitam ao sinal, nem o transeunte.

O “vira-lata” não se atreve andar por ali e, se for atropelado, que se esperneie e deixe de ser louco — vacine-se… Ele e o velho (este contra o resfriado; o cão, contra raiva). Eu fujo desse movimento e das calçadas atravancadas de mercadorias expostas, apinhadas nas calçadas de bugigangas dos velhos tempos do 1,99, que a Presidente vai resolver no próximo Rio+20.

Isso, digo, se o ar ainda for respirável e oxigenado como o Mercosul do Lula, “malufado”. Sou feliz, entrementes, e apesar das mentiras que infestam a atmosfera de metano, preocupado e, ao mesmo tempo, ajuda na caça de um vice para o Haddad. Não faria nada de mais: São Paulo não pode “Lular”, sem gemer como se as minhas ovelhas, sem um cão “collie” de guarda.

Mesmo assim, eu caminhava naturalmente e desenvolto pelas ruas. Quando dei por mim neste deus-dará, neste sem-fazer, ouvi berros de ovelhas. O balido débil, frouxo, vinha de um beco, ou melhor, de um terreno baldio no atravessar a linha da Sorocabana que divide Chavantes em duas partes.

A Estrada de Ferro traz as suas linhas num abandono melancólico, para quem as conheceu no passado do café e dos vagões de luxo: Ouro-Verde. O caminho de ferro tem aquela friagem da Transiberiana do “Tema de Lara” – sonhado aqui, gelado lá. Mesmo, ou ainda, (mais ainda) triste pelo abandono e pelo “beé” que transmitia uma tristeza que contagiava. Olhei por entre os fios de arame enferrujado, uma meia dúzia de carneiros. São carneiros deslanados de raça própria para carnear, de pouca lã, suja, feia, no couro macilento e na pança desnutrida.

Lá não havia o que pastar nem ruminar. O frio e a geada crestaram por cima o que havia de resto. Do capim “pangola” sobrou uma brota à altura do chão raso, tostado pelo frio da madrugada. Os carneiros não têm mesmo o que raspar, ou melhor, “rapar”. É de dar dó. Eles, com certeza têm dono, não estão ali caídos do céu e, com o respeito devido (todo ele), não são “agnus Dei”. São, sim, como nós, vitimas dos descuidados que deixam cravados na gente essa culpa capaz de exaurir a resistência do mais indiferente às durezas da vida.

Nós, comilões, humanos e predadores: eles mortos de fome e de frio. Nós lhes tosamos o velo para acolchoados e pelegos. Uma vez tosquiados, lá, sem lã, sofrem o “minuano” no Sul aonde o “chimarrão” que corre de mão-em-mão e aquece o gaúcho no galpão acolhedor. A ovelha, no tempo, no vento ou no redil, com pastores, rumina e dorme. De dia, esconde do sol à sombra de um frondoso “umbu”, com os pastores sesteando, o rebanho rumina e cochila.

O cão e os pastores são amigos, cuidam deles, afugentam o lobo (guará). A pé ou a cavalo, não largam do bordão. O bonito disso é a lembrança bíblica. De minha parte (friorento como sou) no galpão com a fogueira e a lenha; embaixo do “umbu”, com os “rebancaços do minuano” – como versejava o poeta histórico, Carlos Cavaco — jamais serei um velho “guasca”. Nunca, em tempo algum.

Mas, a verdade é uma só: a literatura popular do Sul, tanto a nossa como dos países “hermanos”, de Veríssimo a Jorge Luís Borges, me fascinaram sempre e, o mais sério: eu vivo isso tudo: de Carlos Cavaco a Martim Fierro. O que seria, nesta idade, ficar em casa, sem o borralho do fogão a lenha do velho Remígio, negro velho, “cochilano na bêra do fogão”. (“Os Remígio – pág.198 – O Celeiro da Memória).

Aproveito, que já estou terminando o artigo, para citar Monteiro Lobato, (como eu fiz em 20/5/2001, em “O Celeiro”…). “(A inteligência só entra a funcionar com prazer, eficientemente, quando a imaginação lhe serve de guia”).

Vamos lá, já é tarde, eu quase sempre escrevo à noite. Meu avô tinha uma ovelha e um “marruá”, macho, chifrudo, que cabeceava os meninos. Eu e o professor Wilson Gonçalves, moleques, tínhamos medo do “marruá” e com a ovelha Noêmia e os seus carneirinhos. Vovô, bravo, da varanda, dizia: “Não corra atrás da carneira, “C’os diabo”. Antes, vou citar John Steinbeck e logo, fechar à página, a cancela, a porteira.

“A bajulação leviana é antes mais insultante que a denúncia”.

“O homem comum, o campo de batalha entre o bem e o mal, o mais humano de todos é o homem arrependido”. “Perdão, vovô Possidônio: eu e o meu primo Wilson não vamos mais correr atrás da sua carneira de estimação — Noêmia — juro, juramos”. 

* In memoriam

* Publicado originariamente em 2018

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