Pascoalino: “Água: só no copo e até à canela”

Água: só no copo
e até à canela

Pascoalino S. Azords
Da equipe de colaboradores

Flávio se diverte com as minhas preocupações existenciais. Ele acha que a Terra sempre acaba dando um jeito em tudo. Eu não entendo a lógica desse meu cunhado que já visitou os quatro cantos do mundo. Deve ser porque eu sou do segundo decanato de Capricórnio, com ascendente em Leão, e só conheço até Aparecida do Norte. Aquecimento global, buraco na camada de ozônio, derretimento das geleiras polares, queimadas, explosão demográfica, nenhuma dessas bobagens lhe tira o melhor do sono ou o ritmo pausado da fala. Se alguém pronuncia “água potável”, ele ri discretamente enquanto aprecia uma cervejinha com moderação.

Eu nado muito mal, desde criança. Minha autossuficiência, em casos urgentes, não passa de 10 metros dentro d’água. Contudo, a água é um tema recorrente na minha árida existência. A princípio eu não via diferença entre água doce e água salgada, entre água de mina e água de poço, água benta e água com gás. Mas ela sempre esteve por perto e, no máximo, na altura das minhas canelas. As procissões em que íamos aguar o pé do cruzeiro do cemitério implorando pelas chuvas retardadas, a enxurrada que invadia a casa do vizinho porque não sabia dobrar a esquina, os milhares de copos sobre o túmulo de Milton Terra Verdi (morto de sede no deserto boliviano depois de 72 dias de agonia), os banhos cronometrados em uma pensão de Assis, e a minha implicância com os ignorantes que lavam a rua com água tratada. Nenhuma ofensa contra a madame que expõe sua escrava remunerada a esse desatino público e diário. Ignorante não é o palavrão que todos pensam e usam injustamente. Vem de ignorar. Mais ou menos como aqueles soldados romanos que, aos pés da santa cruz, não compreenderam a derradeira frase do moribundo do meio: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Quem lava a calçada ou a rua com água tratada é um perfeito ignorante, no bom sentido da palavra.

Eu não vou esperar a Nasa encontrar água em outros planetas, mas tenho me sentido aliviado com as pesquisas da Deca, empresa líder no mercado de louças e metais sanitários. Enquanto as autoridades não encontram o culpado pelo desperdício desse precioso líquido, a Deca detecta os maiores pontos de consumo de água tratada no Brasil. O campeão é o banheiro. Somado o consumo do chuveiro à bacia sanitária e o lavatório, temos 72% do consumo domiciliar. É quase tudo, haverão de concluir os matemáticos leitores. Negativo: a pia da cozinha consome 14%, e ainda sobram 13% para o tanque e a máquina de lavar. E ainda sobra 1% para lavar o carro, o quintal, a calçada e a rua com água tratada. As pesquisas da Deca me tranquilizaram. Quando a sede apertar, basta cortar os banhos, as descargas e os bochechos. Parece o calvário, mas o banho diário não existia quando Niemeyer nasceu há 102 anos – e ele aí está, vivo, para confirmar. O velho Scarpin, vizinho do meu avô no Córgo da Pimenta, se vangloriava de não ter tomado banho nem pra casar!

Sem banhos economizaremos 72% da água tratada que hoje vai pro ralo. E, se um dia, tornar a faltar água, basta cortar os 13% desperdiçados com a lavagem da roupa suja. Quem já produz peças (íntimas) comestíveis, não terá dificuldade em produzir roupa social descartável. Sem tomar banho e sem lavar roupa não seremos piores do que somos hoje, apenas diferentes. Ou igual aos nossos avós da Idade Média, quando a Igreja enquadrava os banhos na categoria das orgias pecaminosas. Sem banho e sem roupa lavada poderemos adiar a importação de água de outros planetas e, de sobra, continuar fabricando a nossa santa cervejinha de todos os dias.

* Publicada originariamente em 15/02/2009

  • Publicado na edição impressa de 24/05/2020
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