Quando a adoção é inesperada

A CERTIDÃO — Gabrielly segura a certidão de nascimento ao lado dos pais; documento saiu na semana passada

Casal de Santa Cruz adotou criança
num enredo de drama familiar; pedreiro,
que era tio da menina, virou pai

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Na segunda-feira, 25 de maio, comemorou-se o “Dia Nacional da Adoção”, uma data geralmente usada pelas autoridades para promover debates sobre um dos princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente: o direito de convivência familiar. Psicólogos, terapeutas, Ministério Público e o Judiciário orientam os casais que desejam adotar crianças e o Conselho Nacional de Justiça possui em seu site um “passo a passo” explicando detalhadamente o processo para quem deseja se candidatar a uma adoção. No entanto, e quando isto acontece involuntariamente, por necessidade ou para proteger uma criança?

É o caso do casal Anderson dos Santos, 40, e Mônica Raymundo Ferreira, 42. O pedreiro já era pai de Andressa Carolina, 15, filha de um primeiro casamento. Da união com Mônica, vieram mais dois filhos — Willkemerson Gabriel, 7, e Lorena Vitória, 2. Claro que nem planejavam mais filhos, quanto mais um adotivo. Porém, o destino os aproximou de Gabrielly.

Na verdade, Anderson é tio da garotinha que nasceu em Ribeirão Preto e estava na casa de parentes na cidade de Primeiro de Maio, no Paraná. No entanto, ele nem conhecia a sobrinha por um motivo perturbador. A mãe biológica, irmã de Anderson, se perdeu na vida. Trabalha em cabarés e é usuário de drogas.

Nos últimos tempos, por exemplo, a informação era de que a mulher estava numa pequena cidade do Pará. O pai da menina é desconhecido, pois o primeiro registro não contém o nome dele. “Só foi pai para fazer, pois não assumiu a criança e a mãe também abandonou. É curioso, pois eu também não tenho pai na minha certidão”, disse o pedreiro.

A família ganhou Gabrielly (à direita)

Anderson conta que há três anos recebeu um telefonema de uma tia que mudaria a rotina da família. “Ela me contou sobre a situação da bebê, que tinha seis meses na época. Perguntou se a gente não queria cuidar, mas a princípio eu disse que não teríamos condições. Afinal, moramos na casa da minha sogra”, afirmou.

A família, entretanto, ficou pensando na possibilidade até que Anderson e Mônica resolveram viajar até Primeiro de Maio para ver a criança. A mãe de Mônica, Terezinha Raymundo Ferreira, 67, estava junto.

“Quando chegamos, já estava tudo preparado, inclusive os documentos para a guarda provisória por seis meses”, contou o pedreiro. Bastaram alguns olhares em direção à bebê, no colo das tias, para que a magia acontecesse. Gabrielly, então, veio para Santa Cruz.

Foi uma mudança radical para a bebê. Afinal, sem a mãe, a criança era cuidada por várias pessoas. “De manhã, ela ficava na casa de um, à tarde de outra e à noite dormia numa casa diferente”, conta Anderson. Segundo ele, já na viagem de volta todos concordaram com a adoção. Anderson acabou se transformando num curioso — e raro — caso de tio e pai ao mesmo tempo.

Em Santa Cruz, a família contratou um advogado e iniciou o procedimento para obter a guarda definitiva. Não demorou muito. O registro de nascimento de Gabrielly, já com o nome de Anderson e Mônica como pais, saiu na semana passada.

“É maravilhoso tudo isto. Acho que finalmente a Gabrielly tem pais, ganhou uma família”, disse Mônica que, curiosamente, após a vinda da menina ficou grávida de Lorena. Isto fez com que Gabrielly e Lorena, agora irmãs, praticamente passem o dia todo juntas, brincando, ao lado de Gabriel.

Mudanças

Com a família maior, o casal diz que Gabrielly ainda é muito nova para entender a situação, já que nem se lembra quando, ainda bebê, veio para Santa Cruz do Rio Pardo. “Ela é minha filha. Em casa, não existe nenhum favorito ou queridinho dos pais, pois todos são iguais. Se compra uma coisa para um, compra para os três”, diz Anderson.

A garotinha parece carregar alguns traumas dos primeiros seis meses de vida, mas que certamente vão passar ao longo dos anos. Na hora do banho, por exemplo, ela grita quando a água cai sobre seus cabelos.

Porém, Gabrielly é feliz e sorridente. Mônica, que ficou grávida imediatamente após a adoção, só lamenta não ter amamentado a nova filha. “Não deu tempo, pois ela já era alimentada com outros tipos de leite”.

Mônica diz que jamais vai se esquecer da viagem para Primeiro de Maio. “Ela veio quietinha e dormiu a viagem inteira”, lembra.

A família não tem grandes posses. Anderson, por exemplo, sabe que as despesas aumentaram. “Nada está fácil para ninguém. Mas onde comem cinco, podem comer seis. Na verdade, a questão financeira nunca nos preocupou, pois sabemos que é preciso trabalhar sempre para sustentar uma família. Mas também aumentaram os momentos de alegria, que são aqueles instantes de levar os filhos para um passeio, para comer alguma coisa diferente. Isto não tem preço”, diz.

Sogra de Anderson, Terezinha Raymundo possui uma pequena propriedade rural, um sítio onde há pequenas plantações, animais e pomar. “A gente traz tudo para casa. As crianças, inclusive Gabrielly, adoram”, diz. Terezinha ajudar a cuidar dos netos. “Aquele ditado que diz que avó é mãe duas vezes é uma realidade”, diz.

AVÓ AJUDA — Aos 67 anos, Terezinha Raymundo ganhou mais uma neta

País tem fila
para adoção

Segundo o último levantamento do governo brasileiro, disponibilizado em fevereiro, o País tem atualmente cerca de 5 mil crianças e adolescentes para adoção. Claro que há uma fila menor do outro lado, daqueles que desejam ser pais — pela primeira ou outra vez. Isto acontece porque a legislação brasileira define uma série de critérios para que pessoas interessadas possam alcançar todas as etapas e conseguir a adoção definitiva.

É que, ao contrário do casal santa-cruzense Anderson e Mônica, que adotaram praticamente sem querer, muitos casais sonham com a adoção por motivos os mais variados.

O caminho, entretanto, é longo. Primeiro, os candidatos devem se apresentar à Vara da Infância e Juventude para obter informações. Depois, haverá uma série de etapas, principalmente a participação em um curso de preparação psicossocial e jurídica voltada para a adoção.

Os interessados ainda deverão se submeter a entrevistas com psicólogos e assistentes sociais. É nesta etapa que o juiz analisa o estudo social para conhecer a família e todas as relações vivenciadas por ela.

Nesta etapa do processo, os pretendentes podem especificar o perfil da criança ou adolescente que desejam adotar.

Os especialistas, porém, alertam que adotar uma criança transcende o ato de amor, já que haverá mudanças profundas na família. Afinal, muitas vezes a criança vem de um lar turbulento, com um passado de violações aos seus direitos.

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 24/05/2020
Sobre Sergio Fleury 5813 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate