Totó, farmacêutico e parteiro

1963 — Figliolia cumprimenta Leônidas após vitória de Carlos Queiroz

Líder político e vereador eleito em 1951 pelo distrito de Sodrélia, o italiano Antônio Figliolia viveu a era de Leônidas Camarinha

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Diz o ditado que, a cada 15 anos, o Brasil esquece os outros 15. É por isso que algumas personalidades ou fatos simplesmente desaparecem da história. Mas no tempo em que vereador não tinha salário e denúncias de corrupção eram raridade, os distritos de Santa Cruz do Rio Pardo tinham poder político, inclusive elegendo vereadores. Foi nesta época que viveu o farmacêutico Antônio Figliolia — o “Totó” —, um dos líderes políticos de Sodrélia, onde comandou durante muitos anos uma farmácia.

O nome de “Totó” ainda é lembrado por moradores mais antigos de Sodrélia como uma referência política. Ele viveu décadas no distrito, numa época em que havia pujança econômica no distrito servido por um ramal ferroviário.

O NETO — ‘Zezinho’ Figliolia mostra homenagem concedida em 1964 ao avô “Totó”, no antigo Clube dos Vinte

O neto dele, Antônio Figliolia, hoje militar aposentado e conhecido como “Zezinho”, lembra que nos anos 1940 a 1960 os distritos costumavam eleger vereadores com uma certa frequência. “Meu avô foi eleito em 1951 e tomou posse em 1952. Na mesma eleição, também ganhou uma cadeira de vereador o Idarilho Gonçalves, do distrito de Espírito Santo do Turvo”.

“Totó” era italiano, nascido em 1894 no povoado de Balvano, região de Basilicata. Chegou ao Brasil aos 16 anos e fixou residência em Ipaussu. Poucos anos depois, se casou com Alba Samadello e montou uma farmácia. Teve filhos, mas ficou viúvo ainda jovem.

Alguns anos depois conheceu Olga Alves Souza, uma adolescente de 16 anos. Figliolia tinha 30 anos. Os dois se casaram no dia do aniversário de “Totó”, em 12 de novembro de 1926.

O jovem “Totó” em Sodrélia

Segundo o neto Zezinho, o avô era um homem de visão. “Ele percebeu que o distrito de Sodrélia estava apresentando um crescimento extraordinário com o café e outras culturas. Naquela época, o distrito possuía até um Cartório de Registro Civil, além de posto de gasolina e açougue. Resolveu, então, se aventurar em Sodrélia e montar uma farmácia. “Só não tinha padaria e o pão vinha de Bernardino de Campos”. De trem? “Não, porque os horários não batiam. Vinha de jardineira, como eram chamados os ônibus de pequenos percursos”, afirmou.

Segundo o neto, “Totó” Figliolia sempre se interessou por política. “Era um homem muito sério, compenetrado e resmungão. Fumava um quilo de fumo de corda por mês, que mandava vir de São Paulo”, conta.

Era, também, muito severo com a educação. “Quando os adultos estavam conversando na sala, as crianças não podiam entrar”, lembra o neto. Segundo ele, “Totó” gostava de um jogo de baralho com os amigos, especialmente truco. “Eu me lembro que muitas vezes ele chegava tarde, a cavalo, e pedia para minha avó preparar a janta”, disse.

Zezinho, por sinal, nasceu no ano em que o avô foi eleito vereador, 1951. E, como os demais netos, veio ao mundo pelas mãos de “Totó” que, além de farmacêutico, era também o parteiro de Sodrélia. “O pessoal conhecia ele como o médico do distrito. Eu me lembro que meu avô era chamado, muitas vezes, durante as madrugadas para acudir alguém ou fazer um parto”, diz Zezinho.

Pelo menos uma dessas passagens foi marcante para o neto. “Eu passava minhas férias em Sodrélia e conhecia todo mundo. Vivia jogando bola no campo e brincando numa lagoa. Numa madrugada fria, meu avô foi chamado para fazer um parto e, para não ficar sozinho, minha avó resolveu me levar. Era um bar e fiquei esperando perto do balcão, tremendo de frio. O dono do bar resolveu me oferecer um sorvete. O resultado é que, depois do parto, meu avô precisou cuidar da minha garganta”, conta, rindo.

Há outras histórias do farmacêutico. Certa vez, Zezinho viu um homem baleado sendo praticamente operado por “Totó”, que conseguiu retirar a bala. “Era de garrucha e o homem disse que foi um tiro acidental. Ninguém acreditou”. Em outra ocasião, um homem chegou bêbado num bar, depois de arrear o cavalo e foi até o balcão. Com a mão, quis enfiar uma enorme faca na madeira ao gritar que queria uma pinga. Só que não era madeira, era mármore. O ferimento na mão foi grande e meu avô cuidou dele, inclusive dando pontos com pedaços de lata. Era como um grampeador”, conta Zezinho Figliolia.

A farmácia de “Totó” ficava perto do campo de futebol e era movimentada. Não havia remédios como hoje, prontos e embalados. O próprio farmacêutico manipulava os sais e ministrava as doses. “Eu me lembro que nem existia o Viagra, mas meu avô tinha um preparado à base de Cantárida, manipulado a partir de uma vespa ou mosca espanhola. Eu via muitos homens procurando este remédio, mas só fui saber, muitos anos depois, para que servia”, contou Zezinho.

Prédio da farmácia hoje ainda estampa no alto a data da construção: 1928

“Totó” deixou Sodrélia por causa da política que tanto amava. Queria ficar mais perto dos acontecimentos, da Câmara e do grupo político de Leônidas Camarinha. Veio para Santa Cruz e transferiu sua farmácia para a rua Benjamim Constant. Começou a ensinar o filho José Figliolia e tocar o negócio, mas continuou trabalhando.

Em junho de 1967, estava atrás do balcão quando sentiu-se mal. Morreu minutos depois. Segundo o neto Zezinho, o avô começou a definhar quando ficou viúvo pela segunda vez. “Embora muito mais nova do que ele, minha avó morreu de câncer na garganta. Meu avô ficou muito triste e foi se entregando”, contou.

O filho José Figliolia, pai de Zezinho, continuou com a farmácia durante anos, sendo também massagista da Esportiva Santacruzense.

Um dia, resolveu vender o estabelecimento e fechou o negócio com um grupo de empresários de outra cidade. Entregou a chave, mas faltava receber o dinheiro.

No dia seguinte, os compradores desapareceram levando todo o estoque da pequena farmácia. Foi um dos maiores prejuízos da família.



MÉRITO — Antonio Figliolia recebe homenagem no Clube dos Vinte, das mãos do deputado Leônidas Camarinha

Figliolia nunca abandonou o
grupo político de Camarinha

‘Totó’ Figliolia foi um político essencialmente fiel. Sempre pertenceu ao grupo político do ex-prefeito e deputado estadual Leônidas Camarinha, pelo qual foi eleito vereador na eleição vitoriosa de 1951, quando Cyro de Mello Camarinha derrotou Filadelfo França Aranha. Foi uma vitória completa, numa eleição em que a votação para o vice-prefeito era independente. Para o cargo, Américo Pitol venceu facilmente o udenista Lindolpho Ferdinando Assis, fazendeiro e avô do atual prefeito Otacílio Parras.

O deputado Leônidas era praticamente imbatível, principalmente porque nas eleições municipais articulava estratégias políticas que a UDN não conseguia vencer. Era ele quem escolhia a dedo os candidatos a prefeito e muitos dos postulantes à Câmara. Naquela eleição de 1951, por exemplo, ele apostou em duas lideranças novas que surgiam nos distritos de Sodrélia e Espírito Santo do Turvo, respectivamente o farmacêutico Antônio Figliolia e Idarilho Gonçalves do Nascimento.

FAMILIARES — ‘Totó’ e familiares posam para fotografia em Sodrélia

Pois os dois foram os mais votados para a Câmara Municipal, superando, inclusive, o então prefeito Lúcio Casanova Neto, que se afastou do cargo para disputar uma cadeira de vereador e ficou em terceiro lugar.

Totó Figliolia não era apenas um vereador fiel a Leônidas Camarinha. Participava ativamente das reuniões políticas do grupo, muitas delas realizada na sede da rádio Difusora, que durante muitos anos pertenceu a Leônidas e depois foi comandada pelo genro do deputado, Carlos Queiroz — que seria eleito prefeito em 1963.

O neto de “Totó”, Zezinho Figliolia, conta que a política era tão acirrada em Santa Cruz — com a divisão entre “vermelhos” e “azuis” —, que na rádio Difusora havia dezenas de cabos de machado num armário. “Em caso de alguma briga com outro grupo na rua, era a arma disponível”, conta.

Sempre ‘vermelho’

Em 1958, aconteceu a grande cisão no grupo de Leônidas Camarinha. O motivo até hoje é um mistério, mas deixaram o grupo políticos como Lúcio Casanova, Onofre Rosa de Oliveira, Anísio Zacura, Elidio Crivelli, Paulo Gilberto Machado Ramos e outros. Todos iriam se aliar à UDN de Alziro Souza Santos e José “Biju” Osiris Piedade, historicamente derrotada por Camarinha.

Figliolia ficou. Nunca abandonaria Leônidas Camarinha, pois a fidelidade política era um de seus principais lemas. No entanto, certamente ele não esteve envolvido no centro do verdadeiro motivo do rompimento.

O “racha”, porém, teve prejuízos incalculáveis para o poderoso deputado estadual de Santa Cruz do Rio Pardo. Em 1959, os “vermelhos” de Camarinha sofreram o primeiro revéz em eleições, quando os “azuis” de Onofre Rosa de Oliveira venceram o candidato Américo Pitol, dos “vermelhos”. Para vice-prefeito, a diferença foi ainda maior, com José Osiris Piedade derrotando o ex-prefeito Cyro de Mello Camarinha.

Na dupla de viola está José Figliolia, filho de Totó, em frente à farmácia de Sodrélia; o “calhambeque” da foto pentencia ao farmacêutico

Para a Câmara, a fidelidade de Antônio Figliolia a Camarinha custou caro. Em Sodrélia, o farmacêutico mais uma vez saiu das urnas como o mais votado. No entanto, a legislação eleitoral já previa naquela eleição o voto de legenda e Figliolia acabou sendo derrotado. Sodrélia, então, manteve sua cadeira com o vereador eleito José Rodrigues Martins, mesmo tendo uma votação menor do que Figliolia.

Quatro anos depois, o farmacêutico apoiou o genro de Leônidas, Carlos Queiroz, para prefeito. Em nova acirrada eleição, Queiroz venceu e praticamente se apresentou como o herdeiro de Camarinha no cenário municipal. Fez uma das melhores administrações da história de Santa Cruz e se preparava para voos mais altos.

Figliolia morreu aos 72 anos em 1967, penúltimo ano da gestão de Carlos Queiroz. Pelo menos não veria a morte trágica do amigo e já ex-prefeito num acidente na rodovia SP-225, no dia 8 de outubro de 1969

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicada na edição impressa de 14 de junho de 2020