‘Zé Porquinho’ fez história

MEMÓRIAS — José Antonio, o ‘Zé Porquinho’ (segundo, da direita para a esquerda), em foto guardada pela família

Comerciante dono de bares foi muito conhecido em Santa Cruz e era requisitado como cozinheiro em caravanas de pescarias

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Ninguém em Santa Cruz do Rio Pardo conheceu pelo nome o comerciante José Antônio de Oliveira. Mas o “Zé Porquinho”, como ficou conhecido o proprietário de vários bares na cidade, todo mundo sabia quem era. O bar mais popular talvez tenha sido o da Benjamim Constant, ao lado do antigo escritório da Companhia Luz e Força Santa Cruz, no espaço onde hoje é o Banco do Brasil. No local, “Porquinho” tinha como vizinho no outro lado o ferreiro Luiz Brondi.

Zé ‘Porquinho’ ao lado da esposa

José Antônio não tinha muito estudo. Cursou somente o primário, mas era difícil alguém batê-lo na matemática. Além disso, era inteligente nos negócios. Muitos imaginam que o apelido ele ganhou porque comprava e vendia porcos e costumava fazer iguarias com a carne do animal, carneiro e até capivara, pois a legislação ambiental era mais tolerante na época. No entanto, o filho Haroldo Antônio de Oliveira faz uma confidência: “Que meu pai me perdoe, mas ele também não era muito chegado a tomar banho”, conta, rindo.

Haroldo tem orgulho do pai e, inclusive, herdou o apelido. No início não gostava, mas exatamente por isso o “Porquinho” pegou. “Meu pai gostava muito de caçar, pois a atividade era liberada. Na verdade, além do bar ele vivia de caça e pesca. Adorava assar porco e fazia alguns pratos exóticos, como cabeça de boi”, conta.

Mas porco assado era a especialidade do comerciante. No bar da vila Saul, um dos inúmeros que teve na vida, existiam três fornos próprios para preparar os pratos de sexta a domingo. “Eu acredito que meu pai foi um dos pioneiros em Santa Cruz a fazer carne assada em bar para vender. E não era só porco. Em dias de movimento forte, eram 300 frangos assados”, conta Haroldo.

PESCARIAS — Na caravana, Porquinho está sentado à direita

Outra especialidade era o sorvete, presente em todos os bares de “Porquinho”. Haroldo diz que os dois genros do comerciante — “Toninho” Vieira e Odair Beguetto, hoje fabricantes de sorvertes — foram incentivados pelo sogro. “Claro que eles aperfeiçoaram muito os produtos. Quando o Beguetto montou a indústria, meu pai trabalhou um tempo com ele. Acho que houve uma cutudada do pai”, conta.

No bar da Benjamim Constant, havia um barracão nos fundos que era frequentado pelos clientes mais próximos de “Porquinho”. Na verdade, eram amigos. “Eles iam chegando no final da tarde e já pegavam o prato. A carne era feita pelo meu pai, mas minha mãe Luzia preparava o resto”, conta Haroldo.

O curioso é que “Zé Porquinho” costumava avisar os amigos que naquele dia haveria uma carne extra soltando rojões. Haroldo, que já foi policial militar e hoje é construtor, brinca que provavelmente os traficantes copiaram o tipo de aviso, hoje comum quando drogas chegam à cidade.

O comerciante não tinha lado político, diz o filho. Pela popularidade de “Porquinho”, é provável que ele tenha sido convidado para ser candidato a vereador, mas nunca quis. “Ele gostava é de ganhar dinheiro, como dono de bar, mascate e verdureiro. Tinha amigos em todos os partidos”, lembra.

“Zé Porquinho” também era generoso. E muito. Haroldo se lembra que o pai costumava fazer grandes quantidades de comida duas vezes por semana. “Aí ele chamava o povo, qualquer um, para se alimentar”.

Caravanas

“Zé Porquinho” era convidado obrigatório em algumas caravanas de pescarias, comuns nos anos 1960 a 1980. Uma delas era a de Alziro Franciscon, pai do comerciante Silvio Franciscon Neto, 66, dono da loja de móveis “Regina”. Segundo ele, nos anos 1960 havia muitas caravanas, algumas até maiores, que costumavam passar 15 dias na região do Araguaia.

O grupo de Alziro tinha “Zé Porquinho”, o cozinheiro da turma. Silvio guardou fotos das aventuras do pai, com imagens de peixes maiores do que os pescadores. Eram outros tempos.

“A turma da caravana costumava se reunir todos os dias no bar do Porquinho onde hoje é o Banco do Brasil. Havia janta depois do trabalho, no barracão que existia no quintal. O pessoal já chegava, pegava cerveja, um prato e ia para os fundos. O duro era chegar em casa depois”, conta Silvio, rindo.

Silvio era muito jovem na época, mas herdou do pai o gosto pelas caravanas. Anos depois, criou seu próprio grupo. “Era a raíz da caravana do meu pai, que também integrei várias vezes. Mas com o passar do tempo, as caravanas se dissolveram”, diz Silvio. Ele ainda guarda em casa as “tralhas” que sobraram.

As caravanas eram completas. Tinha banheiro, chuveiro quente e uma ampla cozinha, claro que chefiada por “Zé Porquinho”. Até a cozinha possuía água quente, obtida através de uma serpentina que passava pelo radiador do motor estacionário.

O interessante, segundo Silvio, é que todos tinham consciência ecológica. “Eles levavam materiais de metal para montar as barracas. Praticamente nenhuma árvore era cortada”.

“Zé Porquinho” morreu trabalhando, numa kombi usada para fazer entregas. O veículo sofreu um grave acidente nas proximidades do posto Cruzadão, em 1990, encerrando uma vida voltada à família, ao comércio e aos amigos. Tinha apenas 56 anos. Deixou sete filhos.

“Gordo Pereba” mostra foto do pai, com nome homônimo de Porquinho (Foto: Sérgio Fleury)

O amigo homônimo

O pecuarista José Antonio de Oliveira Filho, o “Gordo Pereba”, nunca foi parente de “Zé Porquinho”, mas conta uma passagem do pai muito curiosa. Como o nome dele era o mesmo do dono de bar, havia confusão nas contas bancárias.

Certa vez, José Antonio de Oliveira vendeu um rebanho de boi e depositou o dinheiro no Banco do Brasil. “Em dinheiro de hoje, devia ser uns R$ 350 mil”, conta “Pereba”.

No entanto, dez dias depois a família recebe um alerta do banco. A conta estava descoberta e era preciso fazer um depósito. “Nós recebemos o recado e corremos para a fazenda, no Douradão, onde estava meu pai. Ele ficou nervoso, pois mostrou até o canhoto do depósito”, lembra.

Somente na agência a confusão foi esclarecida. O banco, equivocadamente, fez o depósito na conta do homônimo comerciante. “O Porquinho certamente deve ter dado pulos de alegria”, conta Pereba, rindo.

“E isto só foi descoberto depois de alguns dias, pois os serviços bancários não eram informatizados. Meu pai ficou apavorado porque imaginou a hipótese de perder aquele dinheiro”, lembra o pecuarista.

Para evitar nova confusão, o Banco do Brasil e as demais agências bancárias da cidade passaram a identificar os dois “José Antonio de Oliveira”. No talão do pai de “Gordo Pereba”, por exemplo, vinha o apelido “Zezo” escrito na frente do nome. “E os cheques do outro tinha o apelido ‘Zé Porquinho’ na frente”, conta.

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 21 de junho de 2020