Nalini: O que está faltando

O que está faltando

 

José Renato Nalini *

Demorou, mas o setor que pode fazer a diferença acordou para a tragédia ambiental brasileira. Foi preciso afetar o interesse financeiro, ameaça à exportação, ataque à balança comercial. Dinheiro é o móvel único suficiente e capaz de enternecer as mentes mais empedernidas.

Mas o golpe foi sentido. Após a dura manifestação dos responsáveis por Fundos de Investimento mais que milionários, outras vozes foram ouvidas. Empresários brasileiros. A Ministra da Agricultura, a reafirmar o óbvio: o agronegócio não precisa derrubar uma árvore para aumentar a produtividade. Bastaria, se houvesse boa vontade, recuperar as terras abandonadas depois de uma exploração que as exauriu.

Os ex-Ministros do Meio Ambiente – sim, o Brasil já teve Ministros a favor do ambiente – disseram o que pensam. Não é diferente da estupefação mostrada pelo mundo civilizado. Um País que já foi exemplo de preservação ecológica, tornou-se pária global, diante do convite à instauração da cultura de “terra arrasada” e não só ignorou os crimes ambientais, como os anistiou e os incentivou.

Mudou o discurso, mas não é confiável essa “conversão” que procura responder à ira planetária com promessas vazias. Não é suficiente acenar com o “desmatamento legal”, quando o que o Brasil precisa é de “desmatamento zero”. Inacreditável pensar que o mundo civilizado, atento às mudanças climáticas, será convencido por propaganda enganosa. A melhor propaganda seria devolver os quadros funcionais exonerados, reestruturar o desmanche no INPE, chamar os cientistas e os Institutos que conhecem a gravidade do tema e se livrar de cúmplices da desgraça.

Seria cômico, não fora trágico, mandar passear autoridades coniventes com a destruição, para tentar convencer o mundo de que os fatos não representam a realidade.

Os que podem falar, porque conhecem o assunto, já se manifestaram. O que está faltando agora? É a posição da sociedade civil. É a voz do povo. A dos estudantes, mais sensíveis. A voz das crianças. Elas sabem que não terão futuro se a carnificina da biodiversidade e o incêndio da floresta prosseguir.

É urgente que o povo, único titular da soberania, fale, grite, berre, para que os responsáveis vejam o quão errados estão e corrijam o rumo de uma caminhada cujo destino será, inevitavelmente, a extinção da vida neste sofrido planeta. 

* José Renato Nalini é
desembargador, reitor da
Uniregistral, palestrante e
conferencista. Foi presidente
da Academia Paulista de Letras

 

  • Publicado na edição impressa de 26 de julho de 2020