Zanata: Em nome da amizade

Em nome da amizade

 

João Zanata Neto

—Ele que poderia ser um homem honesto, preferiu ser político.

—Agora você está generalizando, Conrad.

—Ora, Manfred! Você não tem lido os periódicos brasileiros? Só se vê corrupção. Quantas vidas foram perdidas nesta pandemia por conta de desvios proferidos por estes governos?

—Mas, e os bons políticos deste país?! Devem ser poucos, concordo, mas não devem ser ignorados!

—Tudo bem, então, que seja uma distinta ressalva, Manfred. Na realidade, o que estou a criticar com a contundência necessária é a cultura da corrupção. Na nossa primeira expedição ao litoral brasileiro o morubixaba já havia nos dado uma ideia alertadora. Você perguntou-lhe: mbobype karaíba i katu? Ele lhe respondeu laconicamente: xe pó. E isto não mudou. O homem branco bom dá para contar com os dedos da mão!

—Eu me lembro, Conrad. Mas, mesmo que a corrupção esteja arraigada em uma sociedade desde os seus primeiros tempos, é um tanto determinista considerar que não se pode reeducar uma nação.

—Eu sou da linha mais dura. Reverter esta distorção moral exige medidas mais severas. Não estamos aqui falando em ladrões de galinhas. Lidamos com sociopatas, pessoas que não prezam pela vida alheia. O que é mais absurdo do que desviar verbas destinadas a salvar vidas?!

—Estes fatos são aviltantes, mas é sempre melhor procurar soluções mais justas e proporcionais ao mal causado. É preciso entender esta sociedade que é formada por diversas etnias. Um estudo sociológico da nação brasileira com ênfase nos seus maiores desvios. É preciso saber de onde vem esta indolência latina, este jeitinho de improvisação e esta tolerância aos desvios de honestidade. Aquela piada indiana do Chankara Pilau. Aquele que estacionou o carro na entrada de emergência do hospital porque estava escrito: sujeito à pena. Ela serve muito bem para o brasileiro. Pena no entendimento brasileiro tem mais o sentido de perdão, de deixar passar do que punição.

—Eu considero inútil vasculhar o baú para encontrar os responsáveis, Manfred. De qualquer modo, os culpados já estão mortos e nenhuma etnia irá assumir esta pecha de disseminadora de corrupção. Eu continuo achando que toda pessoa, em qualquer lugar do mundo, é capaz de cometer um crime destes. A diferença, e é o que importa, é a possibilidade de punição!

—O seu pragmatismo me assusta, Conrad. Você sempre foi o mais racional da turma. Um aluno brilhante. De onde vem tanta ira? Você parece um vulcão que só o oceano aplaca!

—Não é difícil entender, Manfred!

—Ah, já sei! Você andou investindo em empresas brasileiras novamente, não é?

—Então, agora não é só mais um caso de racionalidade perdida. Estou perdendo a capacidade de analisar os mercados.

—Por que não pede ajuda a um profissional, Conrad?

—Eu não estou delirando, Manfred!!

—Perdão pela falta de clareza. Eu me referi a um economista.

—Você sempre soube resgatar a amizade com as palavras exatas, não é Manfred?

—Todo esforço em nome da amizade é válido, Conrad!

—Isto não é uma forma inocente ou… como é aquela palavra? Uma forma palaciana… uma troca de favores?

—No nosso caso não. Que favor você me faz em despejar os seus aborrecimentos em mim? Daqui a pouco, você vai me pedir um empréstimo. Eu lhe disse que era muito arriscado, lembra?!

—Não se preocupe. Desta vez eu fui precavido. Só investi as minhas reservas pessoais. A empresa está sólida. Tome. Aceite um. São os melhores de Cuba! Garanto que não lhe custará nada. É em nome da amizade!

—Acho que você também tem o talento de resgatar amizades, Conrad!

—Em nome da amizade, todo esforço tem valia, Manfred!

—Esta troca de favores… não estou falando destes cubanos… aquilo que você, há pouco tempo disse, pode ser a causa da corrupção desenfreada dos brasileiros?

—Eu não sei, Manfred. Vamos acabar com esta caixa de charutos e não vamos ter a resposta! 

 

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

 

  • Publicado na edição impressa de 26 de julho de 2020