Tonico Lista veio de família de coronéis ricos

O coronel Tonico Lista, cacique de Santa Cruz do Rio Pardo no século passado

Pesquisas de historiadores refutam a versão do menino pobre que trabalhou em lojas e fez fortuna em Santa Cruz

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Diz a lenda que Antônio Evangelista da Silva, o “Tonico Lista”, chegou a Santa Cruz do Rio Pardo pobre, trazido pelos pais num carro de boi, para trabalhar no comércio e tentar a sorte. Em poucos anos, começou a ganhar respeito e fez fortuna. Na verdade, para os historiadores Celso Prado e Junko Sato Prado, a família de Tonico Lista já era considerada abastada e alguns parentes foram políticos importantes em várias regiões de São Paulo.

As informações foram obtidas através de pesquisas sobre familiares de Tonico Lista. Foram anos de intenso trabalho, mas que resultaram numa revelação até então inédita para a história de Santa Cruz. “Ele veio de uma família abastada de São Simão, na região da Mogiana. Todos têm uma ascendência mineira e o grupo se radicou principalmente na região de Ribeirão Preto”, conta Celso Prado.

A chegada de Tonico a Santa Cruz do Rio Pardo, junto com os pais e a única irmã, Maria Cristina, se deu por volta de 1885. Durante os 37 anos em que permaneceu na cidade, ele virou coronel, fez fortuna como comerciante e fazendeiro e teve provavelmente o maior poder da história política da região. Porém, ganhou tantos inimigos que foi assassinado a tiros em julho de 1922, ainda no apogeu de sua liderança política.

Para Celso Prado, Tonico lista foi uma das figuras mais emblemáticas de Santa Cruz do Rio Pardo e deve ser analisado sob os aspectos de gestor e coronel separadamente. “Ele teve uma visão administrativa fantástica. O Tonico, por exemplo, mandou destruir as represas que existiam no ribeirão São Domingos, que eram focos de muitas doenças, além de retirar todos os banhados de enchentes no rio Pardo. Enfim, foi um tocador de obras, um homem de muita importância na Saúde e na Educação de Santa Cruz”, disse.

PROCURA — O historiador Celso Prado continua ‘garimpando’ a história (Foto: Sérgio Fleury)
A pesquisa dos historiadores para encontrar familiares de Tonico Lista envolveu até edições antigas do jornal ‘O Estado de S. Paulo’, que no Império chamava-se ‘A Província de São Paulo’.

A família do coronel tinha ligações com a maçonaria, que era muito forte no final do século XIX e início do século XX. Em São Simão, por exemplo, o avô materno era o alferes Maximiano Baptista Bueno, um dos líderes políticos daquele município e rico fazendeiro.

Maximiano era advogado e coletor de impostos em São Simão. Foi vereador pouco antes de a família de Tonico deixar a cidade e chefe do Partido Liberal Republicano. Comerciante e grande cafeicultor, veio para Santa Cruz do Rio Pardo, onde abriu lojas, foi proprietário de imóveis e comprou terras para a cafeicultura. “A família Bueno foi se instalando na região e, ao mesmo tempo, procurando afastar os Sodrés e Costas do poderio político e financeiro”, diz Celso.

Depois, mudou-se para Salto Grande do Paranapanema, que, na verdade, pertencia a Santa Cruz. Na nova localidade, foi nomeado chefe dos Correios e Telégrafos.

Há um outro tio que foi um poderoso político em Jacarezinho, conhecido como “Coronel Severo”. Segundo Celso Prado, ele exerceu um poder autoritário no município do Paraná ainda mais ferrenho do que Tonico em Santa Cruz do Rio Pardo. “Ele expulsava os desafetos, alguns, inclusive, de famílias de Santa Cruz”, contou.

Severo, segundo o historiador, foi tão violento que, certa vez, pediu aos capangas para que eliminassem um inimigo, mas avisou que queria ver a morte dele. Quando chegou ao local da tocaia, porém, o homem já estava morto.

“Consta que o adversário reagiu e foi baleado mortalmente. Quando o coronel tio do Tonico chegou, ele acabou dando dois tiros no defunto. Não quis perder a viagem”, disse Celso. O coronel Severo foi processado, mas absolvido porque tinha muito poder.

Um cunhados de Tonico, José Nestor de França, teve uma das maiores fortunas do Brasil. “Era filho de um padre com muito prestígio no Império”, lembra Prado. Nestor formou-se engenheiro na Bélgica e morou em Santa Cruz do Rio Pardo, onde foi eleito vereador.

Para o historiador, a personalidade forte do coronel Tonico Lista com certeza foi forjada na infância, em São Simão. “Não foi Santa Cruz do Rio Pardo que fez o Tonico, pois ele já chegou como um rapaz amparado pelo poder familiar. Era um típico rapaz inteligente e com personalidade marcante”, conta.

Tonico em foto de 1915

Tão marcante que, ainda jovem, matou dois soldados e feriu outro num confronto na casa de prostituição que existia em Santa Cruz. O fato aconteceu no dia 10 de junho de 1892, quando Tonico estava sozinho no bordel de uma meretriz, na companhia da amante, quando soldados da Força Pública, todos bêbados, ficaram irritados com o fechamento da casa e tentaram entrar à força. Na janela, o jovem pediu, em vão, para os soldados irem embora. Na invasão, Tonico matou dois soldados com seu revólver calibre 38 e ainda feriu um terceiro, que conseguiu fugir.

Ficou poucos dias preso e foi absolvido num processo sumaríssimo, em que nem recurso foi apresentado pela Justiça Pública. Claro que Tonico Lista foi ajudado pelo chefe político da época, o coronel João Baptista Botelho. O fato demonstra que a família de Tonico Lista já tinha respeito e poder financeiro em Santa Cruz.

Poder e fortuna

Em 1904, Tonico casou-se com Guilhermina Brandina da Conceição, viúva do coronel João Baptista Botelho, que se suicidara dois anos antes. Já era muito rico, tanto que, para afastar rumores sobre a fortuna deixada pelo antigo chefe político, incentivou a mulher a doar uma de suas fazendas, a famosa “Douradinho”.

Na verdade, segundo Celso Prado, o coronel Baptista Botelho estaria à beira da falência e ameaçado de ser denunciado por desvio nos cofres públicos. “Ele se matou devido a problemas financeiros e em meio a denúncias de desfalque”, contou.

Na época, por sinal, Botelho havia perdido o poder, sendo substituído pelo adversário Francisco de Paula Abreu Sodré. Anos mais tarde, Tonico virou chefe político inconstável e seu poder se prolongou até sua morte violenta em julho de 1922. Tinha 53 anos. 

 

Viúva de Lista está sepultada em Santa Cruz

 

Segundo o livro “Coronel Tonico Lista, o Perfil de uma Época”, do escritor José Ricardo Rios — editado pelo DEBATE em 2004 —, Guilhermina Brandina da Conceição “cumpriu o seu fadário”. Casada com os dois homens mais importantes da região, ficou marcada por uma triste sina de datas e uma diferença de 20 anos: Baptista Botelho morreu no dia 8 de julho de 1902, enquanto o atentado a Tonico Lista aconteceu exatamente no dia 8 de julho de 1922.

Guilhermina, duplamente viúva

Viúva, Guilhermina casou-se com Tonico Lista, o herdeiro político de Botelho. Rios, um dos primeiros a escrever sobre o coronel, insinua que ele tinha uma ardente admiração pela beleza da mulher. No entanto, não há qualquer notícia de que ambos tiveram algum romance antes da morte do coronel Baptista Botelho. Num dos capítulos romanceados do livro, Rios narra uma troca de olhares durante um encontro casual na estrada. Celso Prado também garante que Tonico sempre respeitou a mulher de seu chefe político.

Em 1921, quando se via perseguido pelos adversários políticos em denúncias criminais, Tonico chegou a ser preso acusado de assassinato. Foi absolvido graças às defesas de grandes advogados, como Pedro Camarinha, Júlio Prestes (presidente eleito do Brasil em 1930), Altino Arantes e Raphael de Almeida Magalhães.

A partir daí, o coronel Tonico Lista já estava pensando em deixar Santa Cruz do Rio Pardo. Comprou uma mansão em São Paulo e em 1922 praticamente não estava mais na cidade, embora fosse o prefeito. Vinha a Santa Cruz de trem, a cada dez ou quinze dias. Sua mulher e os filhos já moravam na capital. Foi quando Tonico foi assassinado a tiros.

Guilhermina se casou mais uma vez com Victor Rossi, um judeu radicado em São Paulo e próspero negociante de joias. No entanto, não se sabe exatamente como, acabou retornando para Santa Cruz. Morreu em junho de 1929, aos 64 anos, e está sepultada no Cemitério da Saudade.

Segundo Celso Prado, ela não já não tinha grandes posses e nem recursos financeiros. Seu grande amor em vida, Tonico Lista, foi sepultado no cemitério do Araçá, na Consolação, uma das áreas mais nobres de São Paulo. Quando vivo, o escritor José Ricardo Rios disse que a família vendeu o túmulo anos depois. 

 

  • Publicado na edição impressa de 2 de agosto de 2020