Pascoalino: A suprema felicidade, por uns dias

A suprema felicidade, por uns dias

 

Pascoalino S. Azords
Da equipe de colaboradores

Não é nada não, é só um palpite — como cravar 4 a 1 no bolão do Bar do Joel. Mas tenho notado sinais de desaceleração na evolução da espécie humana e um certo cansaço na face da Terra. Não é de agora não, só porque os aviões resolveram cair ou porque estamos a morrer de gripe de novo.

Eu não perco tempo com horóscopo (não perdia nem quando Omar Cardoso era vivo), mas leio os cronistas mais bem pagos da grande imprensa. E desse seleto time que vive (bem) do que escreve, eu perco mais tempo lendo o Arnaldo Jabor, o melhor aluno da classe do professor Nelson Rodrigues. O Jabor tem tanta intimidade com o mestre que, quando falta assunto, ele saca de um telefone vermelho, liga o número do purgatório e bate um longo papo com o Nelson. Em seguida, passa a conversa pro papel e, assim, acaba assinando a melhor crônica da semana publicada no Brasil.

Mas a verdade é que tenho notado um certo banzo até no Jabor. Há uma certa distensão mental, certa câimbra na paciência do cronista que, sob a ótica embaçada de suas lentes de cineasta aposentado, enxerga a degradação moral e institucional dessa terra de Macunaímas e Zé Serras, de Alkmins e Pedro Malazartes. Mas, para não ficar chato de repetitivo, Jabor nos concede um refresco de vez em quando relembrando uma juventude de meio século atrás vivida na cidade maravilhosa, quando ainda se achava que a Terra suportava tudo, que o mar não tinha fim e o Rio seria sempre de janeiro.

E não é que desacorçoado de bater na mesma tecla (e no Lula), o Jabor agora voltou a fazer cinema? A Suprema Felicidade é o nome do seu próximo filme — um filme de época. O nosso Fellini tropical anda por esses dias cercado de chicabons e maiôs, de bambolês e petecas, LPs, radinhos de pilha, DKWs, Romi-Isetas e lambretas…

Imagino o set de filmagem de A Suprema Felicidade como aquele museu de cera empoeirado que exibia as cabeças decapitadas do bando de Lampião e genitálias carcomidas pelas românticas doenças venéreas da época. Vejo Jabor cercado de fantasmas por todos os lados, atores e figurantes vestidos e maquiados para representar uma felicidade para sempre perdida. Entre uma e outra tomada, tirando o olho da câmera e encarando o que não é cenário, Jabor anota em seu caderninho: “Hoje, parece que ando num rio do inferno. O ritmo lento dos desocupados se cruza com os olhares trêmulos de madames e aposentados correndo para trás das grades…”.

Ninguém acaba descrente assim do nada. Eu também tive apreço pela espécie humana por algum tempo. Mas houve uma tarde de domingo, vendo chover carvãozinho no meu quintal, em que me lembrei do encontro de um enviado do presidente americano à Lua e uma garotinha de quatro anos, nascida e criada naquele satélite silencioso (2001, uma odisséia no espaço, de Arthur Clarke e Stanley Kubrick). O homem pergunta se ela gostaria de ir para a Terra. A menina diz que não, sacudindo a cabeça, e se justifica: “A Terra é um lugar ruim. A gente se machuca quando cai. Além disso, lá tem gente demais”.

Bons tempos aqueles em que só a lei da gravidade e um amontoado de gente eram os nossos pontos fracos! 

* Publicada originalmente em 12/07/2009 e reproduzida na edição de 2 de agosto de 2020