Églea de Britto: “A fotografia vai se redescobrir”

A fotógrafa Églea de Britto

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A história de Églea de Britto se confunde com a fotografia. Há mais de três décadas no ramo, é pelas lentes que ela enxerga o mundo. Começou quando as digitais sequer existiam — eram as analógicas que dominavam o setor, com filmes cuja qualidade era indiscutivelmente melhor do que os cabos de computador. Os tempos mudaram nas últimas décadas. O mesmo aconteceu na pandemia. Não restou outra alternativa à fotógrafa senão se reinventar.

Eventos como casamentos ou festas de grande porte — que costumavam regar a rotina de Églea — foram cancelados ou adiados. As lentes, por um certo período, ficaram guardadas. Ensaios, porém, voltaram a acontecer — com segurança, é claro.

“Em geral, ensaios de casais continuaram. Também continuei fotografando grávidas. Mas sempre seguindo os protocolos de distanciamento”, diz. As lentes que alcançam uma distância maior, por exemplo, passaram a ser muito mais utilizadas pela fotógrafa.

Tão distantes se tornaram os ensaios que, muitas vezes, Églea chegou a recorrer a um novo aplicativo de celular —restrito ao iPhone, da Apple — que permite fotografar a distância. “É uma modalidade nova. Mas acredito que não agrada muito aos fotógrafos”, diz.

O aplicativo transmite a câmera do celular do cliente, que passa a ser gerenciada pela fotógrafa. A pessoa, então, se posiciona. O click final está por conta da profissional.

Como a maioria dos artistas, Églea também trabalha com sentimentos e visões que, muitas vezes, só são percebidos no momento em que se está com a pessoa.

“Fotografia é compaixão. Você precisa viver aquilo”. “Trata-se do olhar, do clima. Você precisa estar no mesmo clima que a pessoa”, explica.

Mas às vezes isto ainda é possível. Ensaios presenciais seguem acontecendo. Nem sempre, porém, nos locais desejados. “Os lugares onde realizo meus ensaios estão mais restritos. Evito, por exemplo, locais por onde passe muita gente”, conta.

A preocupação se dá principalmente quando o alvo das lentes são gestantes ou idosos.

Ela não vê a hora de poder voltar a frequentar eventos e disparar seus flashes — reconhecidos em toda a região. “Estávamos em festa todo final de semana”, lembra. “A gente sente falta, sim, deste contato com várias pessoas. É um momento difícil”.

Ouve o mesmo de seus clientes. Acredita, por exemplo, que as duras medidas de distanciamento social podem fazer com que a sociedade passe a valorizar mais momentos únicos. “As pessoas passaram a enxergar o verdadeiro significado das famílias, da convivência”, diz.

Uma das maneiras de se concretizar isso, segundo diz, é revelando fotos — que, bem guardadas, jamais se perdem. É diferente, por exemplo, dos celulares. Fotografias que estão em backup ou armazenadas em um cartão de memória, por exemplo, podem sumir de uma hora para outra se algum problema acontecer.

“Filhos que não veem os avós há algum tempo, por força da pandemia, podem reviver alguns bons momentos ao olhar uma foto revelada”, diz. Églea, aliás, tem recomendado a seus clientes para que revelem suas fotos. “Nada é comparável ao papel”, garante.

A fotógrafa acredita que o mundo sairá melhor desta crise. Segundo ela, a pandemia serviu para chacoalhar a sociedade — até então um pouco morna. 

 

  • Publicado na edição impressa de 16 de agosto de 2020