Beto Magnani: “Os papéis”

Histórias do Magú

Os papéis

 

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

— Você pagou adiantado?

— Estava certo de que fariam o serviço. E bem feito.

— Espero que agora esteja certo de que está na roubada. Pois não Fizeram. Nem bem feito, nem mal feito.

— Se não fizeram é porque não tinha solução. Tenho certeza.

— Se não havia solução não deveriam pegar o serviço.

— Com certeza não sabiam.

— Mas tinham que saber. Tinham que ter visto antes. Como fizeram o orçamento sem analisar o serviço que teriam?

— Certamente fizeram uma estimativa.

— Estimativa?

— Certeza que foi isso.

— As outras estimativas também queriam o pagamento adiantado?

— Não teve outras estimativas. Estava convicto de que eles eram os melhores.

— Você não pesquisou se havia outros mais baratos?

— Precisávamos dos melhores. Tínhamos que ser certeiros.

— Eram os melhores e não resolveram!?

— Certamente não havia solução.

— Era realmente impossível?

— Certeza.

— E não sabiam que era impossível?

— Certamente não.

— E quiseram receber antes de saber. Certo?

— Certo.

— E você pagou. Certo?

— Certo.

— E você acha isso certo?

— Tinha certeza que resolveriam.

— Mas não resolveram.

— Pois é, acho que não. Quer dizer, certamente não.

— E agora?

— Agora certamente vão ter que devolver o que foi pago.

— Será?

— Certeza.

— Deixa de ser Mané! Você deveria ter mais dúvidas e menos certezas! Cometeria menos erros.

— Eu tenho mais dúvidas do que certezas! Certamente não parece, mas pode acreditar.

— Duvido!

— Com certeza.

— Deveria duvidar dessas suas certezas! Cairá menos em roubadas como essa.

— Com certeza.

— Isso se não for mentira que tenha tantas certezas. Eram mesmo os melhores?

— Acho que sim.

— Opa! Agora está na dúvida?

— Acho que estou.

— Afinal, não conseguiram.

— Pois é. Acho que não.

— Acha?

— Não. Tenho certeza.

— E agora?

— O que você acha?

— Que você é um Mané! Já falei.

— Você acha mesmo?

— Não. Tenho certeza!

Eu estava passando em frente à prefeitura quando eles chegaram empurrando o carro que acabara de quebrar no meio da rua. Pararam em frente ao prédio e retiraram vários papeis de dentro do automóvel. Pareciam estar espalhados no banco de traz. Organizaram a papelada em cima do capô do carro enquanto conversavam. Ouvi, não resisti. Colocaram em pastas e entraram na prefeitura. Fiquei curioso para saber qual era o serviço que foi pago e não entregue. Pensei no conserto do carro que chegou quebrado, mas não tive certeza. Quase entrei atrás para tirar a dúvida. Só não fui porque certamente já teriam mudado de assunto. Acho. (Magú)

 

  • Publicado na edição impressa de 23 de agosto de 2020