Franco Catalano: ‘Capitalismo espelhado’

Capitalismo espelhado

 

Franco Catalano

CULTURA  Final de semana passado nos reunimos com a família da Mari. Foram dias ótimos, cujos momentos alegres se potencializaram graças à Pandemia, que nos fez valorizá-los mais do que antes. Dentro do armário do quarto de adolescente dela, encontramos uma caixa empoeirada cheia de nostalgia. Era um Banco Imobiliário, da Estrela. Desenterramos o jogo. Animada, a família se reuniu em volta da mesa de jantar e, enferrujados, demos início ao jogo.

A brincadeira, absolutamente capitalista, é divertidíssima! Em instantes eu já era proprietário de uma empresa de helicópteros, imóveis nos endereços mais nobres de São Paulo e Rio de Janeiro e uma quantia invejável de dinheiro. No jogo, como num espelho da vida real deste mundo que nos coube, quem não investe e não explora o mais pobre, se torna o mais pobre. Como cantou a genial Elis os versos de Rita Lee: “Cada um por si todo mundo na lona, E lá se foi a mordomia”.

Investimentos fracassados, movimentos arriscados, azar. Com a mesma velocidade que enriqueci, empobreci. Pior: fali. Minhas casas foram vendidas, os terrenos hipotecados, as empresas leiloadas e minhas finanças enxugadas. Sem saída, perdi o jogo e abandonei a partida. Meu sogro, empresário “das antigas”, e meu concunhado, graduado pelo Insper com passagem pelo mercado financeiro paulistano, ambos capitalistas convictos, tiveram pena. Projetaram em mim alguém do mundo real: “Imagina se fosse verdade?”, refletiram.

As regras do jogo impedem os outros jogadores de realizar empréstimos ou doações aos que estão em dificuldades. As regras da vida real não. Neste mundo que valoriza mais o capital do que o social, alguns vitoriosos têm espírito socialista. Mantêm ONGs, auxiliam projetos sociais, fazem campanhas de arrecadação e doação. São medidas paliativas, talvez por peso na consciência por saberem que existe tanta desigualdade, ou talvez por bondade nata. De qualquer modo, espero que em um futuro no qual a sociedade tenha evoluído seu pensamento, o Jogo Imobiliário seja um artigo de museu, da ala dos tempos sombrios do mundo capitalista, onde o ser humano dava mais valor ao dinheiro que aos direitos iguais.

 

* Franco Catalano é santa-cruzense, estudou História da Arte em Madrid e é arquiteto

  • Publicado na edição impressa de 6 de setembro de 2020