Beto Magnani: ‘O circo’

Histórias do Magú

O circo

 

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

Quase tropecei no Palhaço caído na calçada da Santa Casa de Misericórdia com um ramo de flores em uma das mãos. Demorei em aceitar a cena, pareceu miragem. Só tive certeza de que era real quando dois enfermeiros apareceram carregando uma maca, vindos da mesma esquina que eu acabara de virar.

— O Senhor está bem? — perguntou um dos enfermeiros.

— Estou ótimo. Não tá vendo? Estou muito bem. — respondeu o Palhaço.

— Pelo menos não perdeu o humor. O que houve?

— Ficou tudo branco.

— Deve ter tido uma queda de pressão. O senhor bateu a cabeça?

— Não. Deitei no chão quando vi que ia cair.

— Fez bem.

— Aprendi com meu avô: “se sentir que vai cair, deita”.

— Essa é boa.

— Vem depois do “vai pela sombra”.

— Como assim?

— “Vá pela sombra. E se sentir que vai cair, deita”.

— Ah sim. Entendi.

— Sabedoria.

— Vamos levá-lo para o pronto socorro. Consegue levantar?

— Só tô curtindo um pouco mais a boca no chão.

— Vamos levá-lo na maca.

— Agradeço a carona.

— Sente alguma dor?

— Pergunta complexa. Posso responder depois?

— O senhor bebeu ou comeu alguma coisa que pode ter feito mal?

— Acho que não.

— Alguma droga?

— Ouvi algumas músicas na rádio hoje de manhã.

— Hã? Perguntei de drogas ilícitas.

— Deveriam ser proibidas.

— Acho que está com febre alta. Vou medir sua temperatura.

— Aqui na rua? Não é melhor entrar primeiro?

— Teve algum outro sintoma de Covid? Vamos testá-lo.

— Pode ser lá dentro?

— O senhor tem algum parente que queira avisar?

— O pessoal do Circo.

— Qual circo?

— Não existe mais. Levaram a lona.

— Levaram a lona?!

— Falta de pagamento.

— Sem shows? Pois é, essa pandemia quebrou quase todo mundo.

— E matou quem sobrou.

— Onde faz graça agora?

— Agora? No chão.

— Perguntei como vive. Seu trabalho.

— Vendo flores.

— As pessoas estão comprando flores nessa época?

— Para os vivos e para os mortos.

— Bonitas suas flores.

— Quer? É o último maço.

— Lá dentro a gente vê.

— Compra já. Faço um preço bom se levar agora.

— Vamos virar o senhor devagar e coloca-lo na maca.

— Resolveu trabalhar? Acho que vou sobreviver.

O Palhaço continuou tentando vender as flores enquanto era carregado pelos enfermeiros para dentro da Santa Casa. Acompanhei todo o procedimento, não resisti, na companhia de outros curiosos que formaram uma arena em torno do artista caído. Antes de dispersar, um senhor se despediu dizendo a todos a sábia frase do avô do palhaço. Fui embora atento. E pela sombra. (Magú)

 

  • Publicado na edição impressa de 6 de setembro de 2020