Cuidados com a saúde mental devem se intensificar no mundo pós-pandemia

A psicóloga Andreia Cristina Pereira, 42, durante entrevista na tarde de sexta-feira, 11

Psicóloga Andreia Cristina Pereira, de Santa Cruz, diz que volta à normalidade exige cuidados redobrados

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Por mais difícil que esteja sendo o período de isolamento social pelo qual o mundo todo passa, uma eventual volta à normalidade depois que houver imunização vai exigir cuidados redobrados. Quem diz é a psicóloga santa-cruzense Andreia Cristina Pereira, 42, que há três anos atende na Be4You.

Em entrevista ao DEBATE, a psicóloga defende que saúde mental será assunto recorrente no mundo pós-pandemia, aponta para riscos de traumas durante o isolamento e admite que viu um aumento no número de pacientes durante a quarentena.

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Andreia, estamos passando por um longo período de isolamento social. Isto afeta a saúde mental das pessoas?
Com certeza. Afeta, afetou e vai afetar bastante. Principalmente em pessoas ansiosas, que querem encontrar com amigos e familiares. Eles querem estar junto com os avós, por exemplo, e isso acaba gerando, além da ansiedade, insegurança. Existem dois tipos desta ansiedade: o medo de ficar contaminado e porventura passar para os familiares e a própria problemática do distanciamento afetivo.

Então, o quadro de pessoas depressivas pode se agravar?
Exatamente. Mas não é só isso. Pessoas que têm tendências para depressão também podem desenvolvê-la durante o isolamento social. O mesmo acontece com a ansiedade. Com certeza este período trouxe tudo isso.

O número de pacientes que você atende também aumentou?
Razoavelmente, sim. Em geral, eles relatam insegurança, medo ou tristeza. Idosos que iam ao baile ou à casa dos filhos e hoje não podem mais, por exemplo, sentem isso.

A mente passa por um processo de adaptação? De que maneira isso acontece?
É um choque muito grande e pelo qual, até então, ninguém imaginava que passaria por isso. Mas os seres humanos também têm uma capacidade de resiliência, de esperança. Podemos passar pelo sofrimento e voltar à normalidade. Mas isso não quer dizer que o período não possa ser turbulento.

Muitas pessoas começaram a trabalhar direto de suas casas. E há a queixa de que se trabalha mais. Você nota isso também?
O relato que eu tenho é o contrário. A maioria dos que recebo é de pessoas que gostaram de trabalhar em home office. Não por trabalharem mais ou menos, mas pela proximidade que passaram a manter com os familiares. Também pela prática, já que se evita o trânsito, por exemplo. Acho que isso vai ficar cada vez mais frequente mesmo no pós-pandemia.

A vacina contra o novo coronavírus deve sair em breve. Como será feita a transição para a volta da normalidade?
Esse retorno será mais fácil. Tanto porque já é algo com o qual convivíamos antes da Covid-19 como pela esperança que todos mantemos. A perspectiva de volta já é um ânimo. Se adaptar ao isolamento foi a tarefa mais difícil. Mas pode haver consequências.

E quais são elas?
Algumas pessoas podem ficar traumatizadas. Se alguém perdeu alguém pelo vírus, por exemplo, pode ter receio de sair na rua e de ficar em locais fechados onde haja aglomeração de pessoas. Ou mesmo adquirir um estresse pós-traumático diante de tudo o que vivenciou. Quem desenvolveu depressão ou ansiedade pode sentir dificuldade para superá-las também.
Pegue os campos de concentração como exemplo. Muitos dos problemas psicológicos de quem foi preso nestes locais se iniciaram depois que a guerra acabou. No pós-trauma é que vêm as consequências. E isso pode afetar a vida profissional e a pessoal.

Como você acha que se dará a volta à normalidade?
Vai ser tranquilo para muita gente. Mas exige cuidados. Apesar de nossa capacidade de adaptação, teremos de prezar ainda mais pela saúde mental. Vai aumentar o número de pessoas que buscam ajuda. Mas espero que o contato físico passe a ser mais valorizado. Parecia algo tão banal antes. Hoje vemos a sua importância. 

 

  • Publicado na edição impressa de 13 de setembro de 2020