Aos 85 anos, caminhoneiro de Santa Cruz do Rio Pardo não pensa em parar

João Lamino tem 85 e ainda desenlona o caminhão durante carga e descarga

João Lamino ainda está na estrada transportando cereais; a filha Elizândra também segue os passos do pai e dirige caminhão

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A cena é rotineira. O caminhoneiro João Lamino estaciona seu caminhão em algum silo do Paraná ou cidades da região metropolitana de São Paulo e ele próprio começa a desenlonar a carga, subindo na carroceria. Serviço pronto, é hora de pegar a estrada novamente. É o dia a dia de qualquer caminhoneiro, não fosse o fato de João Lamino ser considerado um idoso.

O santa-cruzense completou 85 anos na última quarta-feira, 9. Quase não houve tempo para o bolo de aniversário, pois naquele dia ele deixou Santa Cruz quando o sol começou a aparecer e rumou para Boituva com seu Mercedes Benz amarelo ano 1975. Chegou à tarde e na madrugada seguinte faria nova viagem.

“Na verdade, eu sou dois anos mais velho. Nasci numa manhã de 7 de setembro, mas só fui registrado dois dias depois”, brinca Lamino. Ele ainda não pensou em se aposentar na profissão. “Vou seguindo enquanto tiver forças. Na verdade, acho que nunca foi parar”, afirmou, apaixonado pelas estradas. A mulher Maria Elisa quer vê-lo aposentado de vez, mas Lamino faz de conta que não ouviu.

Caminhoneiro profissional desde 1961, João Lamino entinou a filha a dirigir os “pesados”. Hoje, Elizândra (foto menor, abaixo) ajuda o marido, também caminhoneiro, a dirigir nas estradas

O caminhoneiro pode ser o mais velho em atividade numa vasta região. No próximo dia 16, Dia Nacional do Caminhoneiro — instituído através de decreto de 2009 do então presidente em exercício José Alencar —, João Lamino provavelmente estará na tela da TV Tem, afiliada da Rede Globo. E pela segunda vez. A gravação da nova reportagem foi feita no domingo passado, em Santa Cruz. Há um ano, Lamino já foi tema de outra reportagem.

O santa-cruzense se dedica há quase 60 anos às estradas. Trabalhou na roça, foi pedreiro, mecânico e em 1961 virou caminhoneiro. Primeiro, foi motorista de uma empresa para buscar mercadorias em São Paulo com um caminhão da frota. Depois, virou funcionário de uma cerealista até que decidiu comprar seu próprio caminhão. E não parou mais.

Lamino já rodou pelo País, como se diz popularmente, “do Oiapoque ao Chuí”. Muitas vezes, ficou meses sem aparecer em casa, movido apenas pela saudade. Na verdade, o caminhoneiro mal chegou a presenciar o nascimento dos filhos Alexander e Elizândra. “Quando cheguei de viagem, já estavam quase andando”, brincou no ano passado, em entrevista à televisão.

João Lamino na quarta-feira, quando recebeu homenagens pelo aniversário de 85 anos (Foto: André Fleury)

O caminhoneiro tem uma divertida história sobre seu caminhão. Ele foi um dos primeiros donos do Mercedes Benz, mas vendeu para comprar um mais novo. Enquanto procurava um novo caminhão, foi vítima do Plano Collor, que em 1990 bloqueou todo o dinheiro depositado em bancos, inclusive a poupança. E lá se foi o dinheiro do Mercedes amarelo. Começou a economizar novamente.

Algum tempo depois, conseguiu um empréstimo de uma cerealista e, juntando com as economias, conseguiu novamente ter um caminhão próprio. Era amarelo e soava familiar. Pois, para surpresa do próprio João, era o mesmo Mercedes dos anos 1970. Hoje apelidado de “JL”, as iniciais do dono, é o velho Mercedes que acompanha o caminhoneiro até hoje pelas estradas do Brasil.

Mas Lamino também foi jogador de futebol, na época em que, como funcionário, podia cumprir horários normais. Jogou em times amadores e foi profissional pela Esportiva Santacruzense, inclusive integrante do elenco que sagrou-se campeão da Segunda Divisão do campeonato paulista em 1962. No penúltimo jogo, contra o Cerâmica de São Caetano, o ponta-direita estava escalado, mas o técnico resolveu colocar em campo um “jogador mais leve”. João reclamou, mas depois deu razão ao treinador. “Meu substituto fez o gol da vitória”, lembrou.

Outra façanha de João Lamino: no dia 19 de novembro de 1969, estava no Rio de Janeiro e havia acabado de descarregar o caminhão. Estava se preparando para descansar num hotel para a viagem de volta no dia seguinte, quando soube que o Santos de Pelé jogaria no Maracanã contra o Vasco da Gama. Pois João foi um dos torcedores que viram o histórico milésimo gol de Pelé.

Surpreendentemente foi a filha quem segue os passos do pai, já que Alexander é servidor da Polícia Civil. Casada com um caminhoneiro, Elizândra Lamino Camargo, 46, ajuda o marido nas viagens e, em alguns trechos, “toca” o caminhão. Claro que ela aprendeu a dirigir com o pai. 

* Colaborou Toko Degaspari

 

  • Publicado na edição impressa de 23 de agosto de 2020