Santa Cruz pode ganhar a faculdade “Celso Fleury Moraes”

O professor Celso Fleury Moraes, que também foi advogado, terá o nome estampado na fundação

Anúncio de futura instituição superior municipal foi feito pelo prefeito e terá o nome do professor Celso Fleury Moraes

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O prefeito Otacílio Parras (PSB) anunciou que está criando a “Fundação Municipal de Ensino Celso Fleury Moraes”, o embrião da primeira instituição de cursos superiores mantido pelo município. O projeto já foi encaminhado à Câmara e poderá ser votado pelos vereadores até o final do mês. Para o prefeito, a aprovação do projeto “é o primeiro passo” para a instalação de uma faculdade municipal em Santa Cruz do Rio Pardo.

O objetivo de Otacílio é criar legalmente a Fundação Municipal de Ensino, seja através da Câmara como também pela elaboração do estatuto até o final do ano. A implantação da instituição, entretanto, ficará para a próxima administração. “Tudo será a médio prazo”, afirmou.

O plano já tem, inclusive, um provável local para a construção da futura instituição: o terreno público hoje ocupado pela concessionária de veículos Qualità Volkswagen, que ocupa um imóvel pertencente ao município desde a década de 1990 (leia nesta página). De acordo com o prefeito, a Volkswagen do Brasil adotou um plano de padronizar todas as revendedoras e a Qualità, cuja propriedade foi transferida a novos administradores há semanas, deve construir um prédio próprio.

Como fundação, o plano é a instituição receber alunos pagantes e não pagantes, provavelmente mediante bolsa de estudos. Quando instalada, haverá uma espécie de seleção social para a concessão de bolsas de estudos ou gratuidade.

O prefeito Otacílio Parras (PSB) disse que fundação será para cursos superiores (Foto: André Fleury)

A instituição terá professores e funcionários, mas os dirigentes não serão remunerados, já que toda fundação não pode ter fins lucrativos. “É um projeto pensado há tempos. Discutimos a viabilidade jurídica e financeira do empreendimento. Afinal, a fundação precisa ter uma estabilidade financeira suficiente para embutir as despesas dentro do orçamento do município. É como a Codesan”, explicou.

Ele disse que o município tem obtido sucessivos superávits financeiros em seu orçamento e não haverá problemas em manter uma fundação educacional. Ele antecipou, por exemplo, que o atual governo vai deixar no mínimo R$ 10 milhões como superávit. “E certamente é irreversível. Duvido que algum prefeito possa cancelar este projeto, pois não terá coragem. Aliás, pode ampliá-lo”, afirmou.

Segundo ele, após a implantação a luta será conquistar cursos superiores para a cidade. Ainda não existe um perfil adequado dos cursos que poderão ser oferecidos pela fundação, mas o prefeito garante que eles não serão na mesma área dos cursos mantidos pela Oapec em Santa Cruz do Rio Pardo — Direito, Administração, Recursos Humanos e Marketing.

Ele sugeriu, entretanto, que a cidade poderia comportar cursos ligados à Saúde. “A preferência será por cursos integrais, pois o aluno passaria a morar na cidade, gastando em mercado, lazer, aluguel e comércio. Imagine, por exemplo, o curso de Enfermagem, com 40 vagas, que no final de quatro anos haveria 160 alunos, dos quais pelo menos 100 estariam morando na cidade”, afirmou.

“Santa Cruz não comporta um curso de Medicina. Porém, podemos ter cursos como enfermagem, fisioterapia, terapia ocupacional, nutrição, muitos dele em período integral. Temos uma rede básica de Saúde, inclusive a UPA, muito bem equipada para aulas práticas”, explicou. No entanto, ele também destacou as áreas de humanas e exatas.

Otacílio lembrou que muitas instituições do interior foram criadas e mantidas pelos municípios até se tornarem fundações estaduais. É o caso da Faculdade de Medicina de Marília, que era uma fundação municipal e foi estadualizada no início dos anos 1990. Jacarezinho e Bauru tiveram processos semelhantes com suas instituições superiores municipais.

Mesmo com a fundação em atividade, segundo Otacílio, o transporte universitário gratuito deve continuar. “Se nós conseguimos pagar R$ 3 milhões para transportar alunos para outros municípios, por que não podemos gastar mais R$ 1 milhão numa faculdade nossa?”, disse o prefeito de Santa Cruz.


O saudoso professor Celso Fleury e sua mulher, a também professora Maria de Fátima Moraes

Homenageado foi o professor
de inglês que incentivou a arte

Celso Fleury Moraes gostava de ser lembrado como professor de Inglês, embora também fosse advogado. Formado pela USP de São Paulo, lecionou em várias cidades do interior até fixar definitivamente sua residência em Santa Cruz do Rio Pardo, nos anos 1960. Lecionou nas escolas “Leônidas do Amaral Vieira”, “Genésio Boamorte” e na faculdade Oapec. O nome dele na futura Fundação Municipal de Ensino homenageia a trajetória não apenas do professor, mas de alguém que fomentou como poucos a educação, as artes e a cultura no município.

Leitor voraz de jornais, livros e revistas — algumas dos Estados Unidos, que assinava —, Celso foi bolsista nos EUA durante um ano, quando foi condecorado “Cidadão do Texas”, título assinado pelo então governador John Connally, o mesmo que também foi baleado no carro do ex-presidente John Kennedy, assassinado em Atlanta em 1963. Já era o “Teacher”.

De volta ao Brasil, fundou o grupo TAC — Teatro Amador do Centenário —, que durante anos apresentou peças teatrais na cidade e região, inclusive em cidades do Paraná. Era o diretor, escreveu peças e, inclusive, atuou como ator. Escreveu para jornais e foi um dos incentivadores do DEBATE, fundado por um de seus filhos. Invariavelmente, havia improvisos nas peças com a inclusão de críticas ao regime militar.

Quando se aposentou, resolveu cursar Direito e se tornou advogado em 1991. Entre causas de pessoas pobres, ele também foi advogado do DEBATE nos inúmeros embates do jornal com políticos que acabaram sendo condenados pela Justiça. Aliás, escrevia para o jornal desde sua fundação, há 43 anos.

Na década de 1990, foi um dos fundadores da Proarte, ONG que realizou a maior reforma no “Palácio da Cultura Umberto Magnani Netto”, com um projeto do consagrado mundialmente arquiteto JC Serroni. Na política, foi o fundador do MDB, nos anos 1970. Era o único partido permitido como oposição ao regime militar.

Sua biblioteca tinha aproximadamente 7.000 títulos, muitos em inglês, mas Celso leu muito mais. Morreu no ano passado, aos 89 anos, vítima de isquemia cerebral. Deixou a mulher, a professora Maria de Fátima Moraes, e os filhos Neusa, Neide, Sérgio, César e Cibele.


A concessionária Qualità, que desde a década de 1990 está instalada em terreno público

Área de revenda da Volkswagen
é citada como sugestão para sede

De acordo com o prefeito Otacílio Parras (PSB), um dos locais mais indicados para a construção da sede da futura “Fundação Municipal de Ensino Celso Fleury Moraes” é o imóvel hoje ocupado pela revendedora Volkswagen Qualità. A área é de aproximadamente meio quarteirão e foi concedida à empresa na década de 1990, mediante pagamento mensal ao município, hoje fixado em R$ 9.274,42.

A administração da empresa mudou de mãos há algumas semanas e, de acordo com informações que o prefeito recebeu, a Volkswagen quer padronizar todas as revendas e a Qualità estaria negociando um terreno perto do restaurante “Os Galeguinhos”, na avenida Clementino Gonçalves.

A área pública do antigo ‘Mercado Municipal Pedro Queiroz’, inaugurado em 1993 (foto), foi cedida na década de 1990 a uma concessionária

A saída definitiva se dará no máximo em dois anos, o tempo suficiente para a implantação legal da fundação educacional e a aprovação dos primeiros cursos. O prédio, cuja maior parte foi construída pela própria prefeitura no governo de Manezinho, poderia ser adaptado para a fundação. Além disso, o terreno tem espaço suficiente para uma ampla expansão.

Otacílio também sugeriu que, no caso de aprovação rápida de cursos, a fundação poderia ocupar o prédio de alguma escola municipal. “Estamos ampliando escolas e, com um bom planejamento, temos condições de apresentar um prédio a qualquer momento”, disse.

A cessão de um imóvel público a uma empresa particular foi alvo de polêmica. O espaço era o antigo almoxarifado da prefeitura, que foi transferido para a Clementino Gonçalves (atual Codesan) na gestão de Aniceto Gonçalves.

O ex-prefeito Manoel Carlos Manezinho Pereira construiu no local um “Mercado Municipal Pedro Queiroz”, acabando com uma série de caixas d’águas subterrâneas. O empreendimento, inaugurado pelo ministro da Agricultura do governo Collor de Mello, naufragou e o espaço ficou abandonado. Depois, foi cedido à antiga Sasel – hoje Qualità.

Após denúncias, o Tribunal de Contas do Estado (TCE), porém, rejeitou os contratos e os aditamentos feitos no governo de Adilson Mira e multou, além de Mira, o ex-prefeito Clóvis Guimarães Teixeira Coelho. Desde então, a concessão pode ter sido irregular.

 

  • Publicado na edição impressa de 13 de setembro de 2020