Televisão: 70 anos de Brasil, mais de 50 de Santa Cruz do Rio Pardo

O ator santa-cruzense Umberto Magnani Netto, que fez sucesso na TV brasileira

Imagens de televisão chegaram à cidade nos anos 1960; Santa Cruz forjou pelo menos quatro atores de novelas

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A invenção que mudou o mundo aconteceu em 1920, popularizou-se nos anos 1940 e chegou ao Brasil em 1950, pelas mãos do jornalista e empresário Assis Chateaubriand, dono dos “Diários Associados”. Era a televisão, cuja inauguração da TV Tupi ocorreu no dia 18 de setembro de 1950, embora a emissora já tivesse realizado transmissões esporádicas, em caráter experimental. Na época, o dono da antiga TV Tupi chegou a importar 200 aparelhos de TV para que alguém pudesse assistir aos primeiros programas. Afinal, não havia aparelhos à venda no País. Setenta anos depois, praticamente não há um lar no Brasil sem um aparelho de TV.

Assis Chateaubriand era o poderoso comandante de um conglomerado de comunicações, incluindo jornais e emissoras de rádio em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O brasileiro com mais horas de voo da história foi, segundo historiadores, mais poderoso do que Roberto Marinho, da Rede Globo, em sua época. Assis era benemérito – fundou o Masp e dotou o museu com quadros valiosos — e, ao mesmo tempo, ambicioso. Sua obsessão era a televisão.

PRIMÓRDIOS DA TV – Emissora pioneira no Brasil, a TV Tupi fazia vários programas ao vivo na época em que não havia o “videotape”
Nos anos 1960, torre rudimentar é construída para tentar captar imagens da TV em Santa Cruz

No dia 18 de setembro de 1950, foi de uma mulher, a atriz Sônia Maria Dorce, as primeiras palavras pronunciadas oficialmente num canal de televisão: “Boa noite. Está no ar a televisão no Brasil”! Em seguida, Lolita Rodrigues cantou “Canção da TV”. Nas semanas seguintes, nomes até hoje conhecidos iniciaram a programação da TV Tupi, como Hebe Camargo, Lima Duarte e Mazzaropi.

Entretanto, demorou ainda alguns anos para a popularização da TV. No início, o aparelho tinha um alto custo e, em alguns casos, era peça de decoração de residências de luxo. No início dos anos 1970, com o general Emílio Garrastazu Médici comandando a ditadura militar, o televisor finalmente ficou acessível às massas, com a implantação de indústrias multinacionais na Zona Franca de Manaus. Enfim, o regime militar percebeu que a televisão poderia ser um valioso instrumento político.

No final dos anos 1960, já existiam vários canais de televisão além da Tupi, como Globo, Bandeirantes, Excelsior, Record, Rio, Cultura, Paranaense, Itapoan e outras. A ditadura militar cassou algumas emissoras que considerou inconvenientes para o regime, como a Excelsior. Com apoio dos militares, a Globo passou a dominar a audiência nacional.

Maria Klescke ao lado do apresentador “Bolinha” durante programa de auditório na TV ao vivo

Em Santa Cruz

Quem tem mais de 50 anos provavelmente nasceu na década em que as imagens da televisão finalmente chegaram a Santa Cruz do Rio Pardo. Era os anos 1960 e a “Santa Cruz Elétrica”, a maior loja de eletrodomésticos da cidade, acaba de ser vendida por Carlos Queiroz, que se tornaria prefeito a partir de 1964. Entre dezenas de fogões, geladeiras e centenas de aparelhos de rádio, havia um único televisor. Claro que ninguém comprava, pois só transmitia chuviscos.

Foi aí que os novos sócios decidiram construir uma antena de 40 metros nos fundos da loja e as imagens da TV Coroados, do Paraná, apareceram na telinha. Isto foi possível porque outro vendedor de eletrodoméstico, Elias Moyses Abeche, havia instalado um receptor japonês em Domélia. Foi uma festa e moradores se aglomeravam em frente às lojas — que permaneciam abertas até as primeiras horas da noite — para ver de perto a maravilha da televisão, mesmo com imagens precárias.

No final da década de 1960, chegaram as imagens da TV Excelsior graças a um consórcio montado pela família Ferraz Egreja, de Ipaussu, com rotarianos de Santa Cruz do Rio Pardo, entre eles Carlito Bertoncini e Clélio Zanoni. Em 1970, apareceram os primeiros aparelhos de TV em cores.

O curioso é que, em 1971, a prefeitura decidiu instituir uma “taxa de televisão” obrigatória para todo morador que fosse proprietário de um aparelho de TV. O prefeito Onofre Rosa alegava que era preciso cobrir as despesas de manutenção das torres, sob responsalidade do município. O preço seria Cr$ 2,50 por aparelho instalado, mas o novo prefeito a partir de 1973, Joaquim Severino Martins, acabou com a cobrança flagrantemente inconstitucional.


Jacira Sampaio, a inesquecível “Tia Benta” do “Sítio do Picapau Amarelo”, ao lado da atriz Rosana Garcia

Televisão levou vários
santa-cruzenses ao ar

Amigos, Umberto Magnani e Cléo Ventura fizeram várias novelas na TV

Muitos artistas de Santa Cruz do Rio Pardo ficaram conhecidos através da televisão. Não foram propriamente lançados pela TV, já que a maioria veio do teatro, mas ganharam fama no maior veículo de comunicação do Brasil. O mais famoso talvez tenha sido Umberto Magnani Netto, que morreu em 2016 durante as gravações da novela “Velho Chico”, da Rede Globo.

Ator já consagrado no teatro e detentor dos principais prêmios brasileiros, Umberto estreou na televisão em 1973, na novela “Mulheres de Areia”, da antiga TV Tupi. A partir da década de 1980, Umberto Magnani participou de inúmeras novelas na Globo, Record e SBT, além de minisséries e seriados.

Entre uma novela e outra, Umberto ainda atuou em pelo menos 10 filmes e fez inúmeras peças teatrais. Nos anos 1980, virou um “monumento vivo”, quando o então prefeito Onofre Rosa de Oliveira deu o nome dele ao Palácio da Cultura de Santa Cruz do Rio Pardo.

Na televisão, Magnani gostava de improvisar para, em algum momento, citar o nome de sua cidade natal, que tanto amava. Foi assim numa novela de época do SBT, quando seu personagem era dono de uma venda e atendia cavaleiros em viagem. Numa cena, alertou um deles: “Se vai para o sertão, muito cuidado lá em Santa Cruz do Rio Pardo com o coronel Tonico Lista”.

Aliás, Umberto tinha o sonho de protagonizar uma novela ou filme sobre Tonico Lista. Um AVC em 2016 sepultou a ideia.

Mas a cidade tem também a atriz Cléo Ventura na telinha. Amiga de Umberto, ela participou de filmes, fez peças teatrais e atuou em várias novelas da televisão. A primeira foi “O Leopardo”, da Record, em 1970. Cléo ainda atuou em novelas e minisséries da Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT.

Outra atriz que nasceu em Santa Cruz e fez carreira na televisão foi Jacira Sampaio. Fez inúmeras novelas e minisséries na extinta Tupi, Excelsior, Record e Globo. No entanto, se consagrou como a personagem “Tia Anastácia” na série “Sítio do Picapau Amarelo” da Globo, produzida entre 1977 e 1986.

Recentemente, um outro santa-cruzense passou a ser um dos rostos de destaque na televisão. Willian Mello, já fez filmes, peças teatrais e se consagrou em anúncios publicitários, especialmente do grupo “Trivago”. Logo depois, estava em novelas do SBT e da Record. Até o final do ano, Willian vai estrear na Globoplay com a série “As Five”.

Vários outros santa-cruzenses tiveram participação, embora curta, na televisão. É o caso de Maria Aparecida Klescke, que foi uma das “boletes” do programa “Clube do Bolinha”, que migrou da TV Excelsior para a TV Bandeirantes nos anos 1970. Entre 1976 e 1978, ela aparecia ao vivo nas tardes de sábado, como uma das garotas que ajudavam Edson Cury, o “Bolinha”, no palco. O programa era o concorrente direto da “Buzina do Chacrinha”, da Rede Globo. Maria foi casada com um santa-cruzense e hoje mora na cidade.

José Eduardo Catalano foi destaque no “Programa Silvio Santos”

Ainda na TV, Santa Cruz foi destaque em notícias, entrevistas e outros programas de auditório. A cidade, por exemplo, foi tema da abertura do “Jornal Nacional” em 1981, quando uma revolta popular contra a Sabesp depredou prédios públicos. Cid Moreira abriu o telejornal com a manchete: “Tumulto em Santa Cruz do Rio Pardo, interior de São Paulo”.

A TV também enalteceu a cidade. Em 1968, a Excelsior fez uma homenagem especial ao médico Pedro César Sampaio no programa “Clube do Vovô”, com a presença de vários santa-cruzenses, inclusive do prefeito Carlos Queiroz.

Na década de 1970, um dos programas de auditório foi transmitido direto do antigo Clube dos Vinte, de Santa Cruz do Rio Pardo. Era “Os Brotos Comandam”, da TV Bandeirantes, apresentado por Luiz Aguiar. Grandes artistas da “Jovem Guarda”, como Wanderléia, Martinha e Os Vips cantaram no palco do clube.

Mas há outras participações. José Eduardo Catalano, por exemplo, disputou — e ganhou — todos os prêmios do “Programa Silvio Santos” nos anos 1970 e chegou a elaborar ideias para o apresentador, a pedido do próprio dono do SBT. 

* Colaborou Toko Degaspari

 

  • Publicado na edição impressa de 20 de setembro de 2020