Ferrovia esteve ameaçada em Santa Cruz

A estação ferroviária de Santa Cruz correu risco de desaparecer em 1947; ela foi extinta de uma vez em 1966

Na Assembleia Legislativa, deputado Leônidas Camarinha alertou sobre plano de retirar o trem de Santa Cruz em 1947

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O que seria um grande fator de desenvolvimento, inaugurada com pompas pelo governador paulista Jorge Tibiriçá em 1908, a ferrovia foi, na verdade, uma grande “dor de cabeça” para Santa Cruz do Rio Pardo. É que a cidade bancou a construção do ramal até Bernardino de Campos, numa extensão de 24 quilômetros, e amargou uma dívida que só seria perdoada na década de 1950. E pior: o Estado não fazia a manutenção adequada do trecho e ainda ameaçou acabar com o ramal nos anos 1940. No entanto, ele só seria desativado mais de vinte anos depois, em 1966.

Esta informação está em grandes jornais da capital, que foram pesquisados pelos historiadores Celso Prado e Junko Sato Prado. A história mostra que Santa Cruz não se importou em financiar o ramal porque contava com a construção da “Ferrovia do Peixe”, que partiria do município em direção à várias cidades até chegar à Bolívia. Seria a redenção econômica de Santa Cruz.

Nem mesmo quando a cidade perdeu a linha tronco da Sorocabana, que foi desviada para novo trecho que alcançou Ipaussu e Chavantes, os políticos se preocuparam. Planejaram o ramal e aguardaram a sonhada “Ferrovia do Peixe”.

A obra estava autorizada desde a época do Império, mas inexplicavelmente foi cancelada após a chegada dos trilhos da Sorocabana. Segundo consta, o trecho da “Ferrovia do Peixe” foi transferido para Bauru.

Em 1945, em meio às dívidas do município, o Estado começou a abandonar o ramal ferroviário entre Santa Cruz do Rio Pardo e Bernardino de Campos. Segundo notícia publicada no jornal “Correio Paulistano” — o primeiro diário paulista, que circulou a partir de 1854 —, o abandono do ramal ferroviário prejudicava o desenvolvimento do município.

A primeira notícia saiu em fevereiro de 1945 e enaltecia Santa Cruz do Rio Pardo como uma das cidades de São Paulo com grande potencial de progresso. O jornal cita que o município contava com todos os melhoramentos indispensáveis a um núcleo urbano, “com perfeito serviço de água e esgoto” e asfalto em suas ruas. Aliás, a notícia diz que Santa Cruz era “uma das raras cidades do interior a dispor deste sistema de pavimentação”.

No entanto, o jornal denunciou que o ramal ferroviário, muito utilizado para o transporte de produtos agrícolas, estava abandonado. “Encontra-se no mesmo estado inicial [de 1908], não tendo merecido sequer as vantagens de empedramento”, diz a reportagem.

De acordo com o jornal de 1945, a região não possuía estradas rodoviárias em condições de uso frequente. Além disso, o número de trens mistos — de passageiros e vagões de cargas — era insuficiente para a demanda tanto de Santa Cruz quanto de Bernardino de Campos.

De fato, dois anos depois começaram a circular boatos de que o ramal ferroviário entre as duas cidades poderia ser extinto. Em 1947, o Brasil respirava ares democráticos depois da ditadura do “Estado Novo” de Getúlio Vargas, mas havia efervescência política nas ruas.

Em maio, o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou decreto-lei suspendendo o funcionamento do Comando Geral dos Trabalhadores. Ao mesmo tempo, o Tribunal Superior Eleitoral decidiu cancelar o registro do Partido Comunista do Brasil. Como se não bastasse, havia boatos de intervenção federal em São Paulo, Estado governado por Adhemar de Barros.

Foi neste clima que o “Correio Paulistano” trouxe uma notícia perturbadora para Santa Cruz do Rio Pardo na capa da edição de 7 de maio de 1947: havia rumores de que o ramal da Sorocabana que servia a cidade poderia ser desativado.

O deputado Camarinha com Juscelino Kubitschek em Santa Cruz em 1955

O fato levou imediatamente o deputado santa-cruzense Leônidas Camarinha à tribuna da Assembleia Legislativa. De acordo com a reportagem, Camarinha “pintou em negras cores” a situação do ramal ferroviário de Santa Cruz do Rio Pardo e denunciou o descaso do governo estadual. “Esta situação é desconhecida da maioria dos diretores que passaram pelo comando da ferrovia”, afirmou o deputado estadual.

Na verdade, ao criticar o possível plano estadual para extinguir o ramal que ligava Bernardino a Santa Cruz, o deputado Leônidas Camarinha sugeriu que o governo planejasse o que chamou de “retificação de trecho”. De acordo com o discurso dele, o ideal seria um desvio no trecho entre Bernardino e Ipaussu, integrando a estação de Santa Cruz do Rio Pardo à linha tronco da Sorocabana. Segundo Camarinha, a iniciativa geraria lucros maiores para todos os municípios e, a partir daí, o ramal poderia ser suprimido.

Se era ou não mero boato, o fato é que a intervenção do deputado Leônidas Camarinha amenizou a crise e garantiu a manutenção do ramal ferroviário em Santa Cruz do Rio Pardo por mais duas décadas.

Hoje, em Bernardino de Campos, existe até cerca de arame em meio aos velhos trilhos

A ferrovia finalmente foi extinta no município em 1966, com a desativação do ramal. Muitos anos depois, a Fepasa e a Rede Ferroviária Federal foram privatizadas e a medida praticamente sepultou o trem no Brasil. Hoje, a linha férrea da Sorocabana está totalmente abandonada e em alguns locais até os trilhos estão sendo furtados. O sucateamento é visível em todos os trechos. 

 

  • Publicado na edição impressa de 20 de setembro de 2020