Nalini: ‘Ética & robótica’

Ética & robótica

 

José Renato Nalini *

A celebração do centenário de nascimento de Isaac Asimov (1920-1992) justifica rememorar o que esse russo — que nunca aprendeu a língua nativa — representa para a civilização. Com três anos seus pais se mudaram para os Estados Unidos e ali ele se formou em química em 1939. Deixou o curso de zoologia por não se conformar com a dissecção de um gato.

Seu ofício era escrever. Propôs-se a escrever 500 livros e chegou a 463. Mas não se limitou a isso. Missivista, ensaísta, contista, foi prolífico. E profético. Em 1964 previu que as máquinas tornariam automático o espaço doméstico e isso aconteceu. Antecipou a possibilidade de conversas em vídeo, o fim da TV de tubo, o crescimento da população, o aumento da desigualdade e o avanço da computadorização.

Acertou quando proclamou que a irresponsabilidade humana com questões ambientais ficaria abundantemente clara. A rota de devastação ambiental e climática está em acelerado curso. Não se confirmou sua visão otimista de que avanços tecnológicos permitiriam, em 2019, reverter a deterioração.

Vale a pena ler Isaac Asimov e constatar o quão adiantado ele se encontrava em relação aos progressos humanos em termos de descoberta daquilo que sempre existiu e nós, presos à ignorância — metáfora da caverna de Platão — demoramos a enxergar.

Mas a maior contribuição dele para a humanidade foi a elaboração das três leis da robótica: 1. Um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; 2. Os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; 3. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

Elas são consideradas o código de ética para qualquer máquina inteligente e autônoma. Mas podem servir de inspiração para a própria conduta humana. Seria bom que os humanos também não pudessem machucar outros humanos.

Sua pregação científica para a população jejuna em ciência continua atualíssima. Se o Brasil tivesse dedicado às ciências exatas o mesmo tempo e fervor com que investiu nas humanas, o profundo fosso de nossa tecnologia teria sido afastado. Sem acrescentar que a difusão das humanidades sem ética responsável é discurso estéril e perda de tempo. 

* José Renato Nalini é desembargador, reitor da Uniregistral, palestrante e conferencista. Foi presidente da Academia Paulista de Letras