João Zanata: ‘Estado crônico’

Estado crônico

 

João Zanata Neto

Refletindo um pouco sobre política e moralidade dos governantes, eu acho que estamos em uma fase crônica. São tantas coisas acontecendo todo dia no país que daria para escrever um livro. Isto vai de certa forma decepcionando e ruindo aquela boa esperança de que tudo vai dar certo.

Aquela imagem do homem político vai se distorcendo e se transfigurando em uma ideia completamente oposta à velha ideia da importância de um político.

Hoje não é nada ultrajante ter um político como algo muito próximo a um bandido. Talvez, seja esta a razão do pouco interesse que há em ser um candidato. Não estamos mais separando o joio do trigo, mas sim o trigo do joio.

Esta falta de interesse é algo sério e alarmante. Quanto menos os homens honestos se dispõem ao pleito, maior a chance dos desonestos alcançarem o poder. Este fenômeno é agravado pela possibilidade da reeleição. É hora de repensar a reeleição. Veda-la seria muito menos nocivo à democracia do que deixa-la ao monopólio de poucos desonestos. Tal vedação fortalece o princípio da alternância do poder com vistas a garantir a democracia ante o perigo da recondução. A alternância do poder existe, mas é mitigada pela possibilidade de uma recondução. O princípio da alternância só terá eficácia quando vedar qualquer recondução.

A política é essencial para a organização e condução da sociedade. Isto todo mundo sabe e pode perceber, mas acho que temos dado muita importância ao ser político. Este ser não é mais que um cidadão, um igual com responsabilidades e obrigações específicas, uma coisa que todo mundo tem e não há nenhuma nobreza nisto. Não há nobreza em ser político. A nobreza de um político é a sua honestidade e o seu interesse real em seu povo. A nobreza de um político não advém do seu cargo. O Brasil não é mais um império.

A urna é uma verdadeira caixa de Pandora. Quem sabe os males que dela sairão? Somos nós que alimentamos tais maldades por ingenuidade, ilusão ou falta de opção. Já chegamos ao ponto de eleger presidente por pura falta de opção. Eis aqui o estado crônico dos acontecimentos políticos.

Todo cidadão sabe ou deveria saber que o interesse da administração sobrepõe o interesse do particular. A sociedade, ou seja, ixé, oré e iandé (eu, nós e todos nós) temos a primazia do interesse em prol da manutenção desta mesma sociedade. Com base neste princípio, todo ser político que comprovadamente comete improbidade está sujeito a um rito jurídico que deve restaurar o erário e estabelecer outras sanções cabíveis. Contudo, estabelecer uma perda total da elegibilidade é a novidade que deve ser proposta. Alguns poderão até dizer que é exagero, mas alguém já viu um político regenerado?

Em que pese o desgosto desta novidade, o princípio da alternância mencionado resolve isto sem exageros. Se for pego roubando, será a última vez. 

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

  • Publicado na edição impressa de 20 de setembro de 2020