João Zanata Netto: “Eu existo”

Eu existo

João Zanata Neto *

Você já deve ter visto alguém furioso. Isto é tão comum, mas não deveria ser. As causas de tais fúrias, às vezes, são pequenos aborrecimentos. Uma coisa tonta sem maiores consequências não deveria provocar emoções tão fortes. Por tal razão, muitas outras causas são cogitadas por serem mais prováveis. Tudo acaba em uma questão a ser desvendada. Tudo se transforma em uma questão tão séria que toda uma ciência é criada para explicar tais excessos. Por uma influência cartesiana, é natural que tais estudos recaiam sobre um objeto, um algo palpável, onde muitos segredos podem ser elucidados. É sempre interessante dissecar, vasculhar as entranhas para encontrar o entendimento das coisas. A investigação de uma máquina defeituosa é algo análogo. O sucesso ocorre quando se encontra a peça quebrada como a causa do mau funcionamento. Contudo, restará descobrir por que tal peça quebrou. Com o ser humano o mesmo se dá. Uma resposta levará a outra pergunta. Até onde se pode aprofundar esta investigação sobre a máquina humana? A ciência diante deste desafio se torna instigante e frustrante ao mesmo tempo, pois dá a nítida noção das limitações da ciência.

Um cérebro e um computador podem ser programados para expressar emoções. Ambos expressam emoções, mas será que sentem o que expressam? É estranho pensar que coisas podem sentir quando bem sabemos que isto não é possível, pois sentir é ter a noção de estar emotivo. Pensar nesta possibilidade é admitir o ser como um organismo que se determina por um complexo eletroquímico segundo as leis da química. Se considerarmos esta hipótese, a palavra humano toma outro significado. A morte, nesta premissa, seria o desligamento de todas as interações eletroquímicas que proporcionam os estímulos e as respostas. A morte, por si só, não atesta a humanidade. É apenas a cessação da expressividade. O que poderia, então, dar pistas de algo além da coisa? Ou seja, o que poderia dar a noção de humanidade? Existe, além deste corpo, algo impalpável que os cartesianos ignoraram? E se for algo mais sutil, menos denso que a matéria, que não se pode ver ou experimentar? Nesta vertente da busca pelo invisível, poucos percorrem estes caminhos sem inquietações. Não há método que se aplique. Não há medida que se possa quantificar.

Supondo que a ciência avançou extraordinariamente e já consiga detectar a sutileza do espírito de tal forma a explicar a animação do ser. Então, o corpo é uma coisa densa gerida por outra coisa sutil e onde estará aquilo que sente e se poderá finalmente dizer que é o eu de cada corpo? Imaginem, sem muito esforço, um recipiente com água fervente onde há um termômetro em que se pode ler a temperatura da água. Por analogia, diremos que o recipiente com a água é o corpo denso. A vibração é o corpo sutil que gera o fenômeno térmico. A fervura da água é a emoção. O termômetro expressa a temperatura em valores. Então, quem sente a temperatura? Nenhuma das coisas, pois todas apenas transmitem a energia térmica ou se aquecem sem ter a noção do que é o calor. Não há nada que se possa dizer humano nesta hipótese. Se este eu não pode ser uma coisa, ele não existe ou o existir é apenas uma ideia que se deduz, mas não se sente? Existimos porque pensamos ou porque temos a consciência do pensamento?

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

  • Publicado na edição impressa de 4 de outubro de 2020
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