Morre a professora de Santa Cruz que escreveu Bíblia à mão

Além da Bíblia, Norma escreveu mais de três dezenas de cadernos

Religiosa, ela lutava contra um câncer há algum tempo

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A professora aposentada Norma Pereira de Lima Firmino morreu na quinta-feira, 8, aos 74 anos. Ela lutava contra um câncer e não resistiu ao tratamento. Católica fervorosa e devota de Nossa Senhora Aparecida, Norma chegou a escrever a Bíblia à mão, um trabalho que durou um ano e três meses e consumiu dezenas de canetas, cuja tinta seria suficiente para encher dois potes de sorvete. Ela mesma dizia que as pessoas estranhavam o que fazia. “Tem gente que pensa que sou louca”, afirmou no início do ano passado ao jornal.

Filha de pais religiosos, Norma estudou no antigo “Colégio Companhia de Maria” de Santa Cruz do Rio Pardo e se formou professora.

Como era especialista em caligrafia, quando se aposentou Norma não apenas escreveu a Bíblia à mão — cujo trabalho consumia três horas por dia — como também passou a escrever cadernos, tudo manuscrito.

Não eram propriamente “diários”, mas partes da história de sua família, algumas passagens divertidas — como o dia em que pegou na mão do namorado, quase três meses após o início da relação —, o casamento, a chegada dos filhos e netos. Tudo é ilustrado com desenhos e fotos, que Norma aprendeu a acumular nos tempos do colégio.

Os cadernos estão organizados por ano e alguns trazem curiosidades que surpreendiam a professora. Ela anotou, por exemplo, quantos sacos de cimento foram necessários para a construção do Cristo Redentor, considerada uma das sete maravilhas do mundo.

Em cada página dos cadernos Norma costumava deixar um conselho ou frases para os descendentes. Fazia com tinta diferente, destacado, como lições para as próximas gerações. “Quero que meus filhos e netos leiam quando eu não estiver mais aqui, como ensinamentos de moral, ética, caráter e religião”, afirmou em entrevista ao jornal.

Alguns cadernos de Norma tinham desenhos, fotografias e frases “para as próximas gerações”

Mas não era só. Norma Firmino também criou uma agenda para enumerar — com fotos ou desenhos — os mais de 300 títulos atribuídos a Nossa Senhora do mundo todo.

Um objeto que guardava como relíquia era um terço que ganhou do bispo dom Salvador Paruzzo, da Diocese de Ourinhos. Orgulhosa, lembrava que ele tinha sido benzido pelo papa João Paulo II.

Sem querer, aliás, Norma também juntou preciosidades históricas. É que um dos cadernos manuscritos guarda uma variedade de “santinhos” anunciando a morte de pessoas. Eles geralmente são entregues nas missas pelo sétimo dia de falecimento. Todos trazem até uma foto.

Norma guardou muitos e resolveu fazer um caderno especial. São pessoas que Norma conheceu ou que a professora considerava que foram importantes para Santa Cruz do Rio Pardo.

Virou, então, um caderno sobre parte da história da cidade. Na coleção estão os “santinhos” dos padres Joaquim Bueno de Camargo (falecido em 1989), João Basílio (2018), Esdras Moraes (2006), José Maria Lorenzetti (1986), Frei Chico (2004) e outros. Mas também tem os de Fermino Magnani (1959), Antonio Carlos Bertoncini (2007), Neli Saliba Moreira Martins (2017), Pedro Zilio (2001), Olívio Beguetto (1999), Antonio Roberto Buassali (2008), Antonio Manfrin (1984), Maria Ricarda de Giácomo (2017) e tantos outros.

Norma certamente tinha cadernos inacabados, pois foi vencida pelo câncer. Deixou o marido Cesário e os filhos Rodrigo e Acácio. Ela foi sepultada na sexta-feira, 9.

 

  • Publicado na edição impressa de 11 de outubro de 2020