Uma viagem ao coração do Brasil

A CAMINHO — Na tarde de sexta-feira, José Roberto e o filho Luigi se preparavam para a grande aventura sobre duas rodas, que vai durar três semanas

Pai e filho de Santa Cruz do Rio Pardo vão se aventurar pelo Centro-Oeste do Brasil durante três semanas

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O bancário José Roberto Gomes Lorenzetti, 62, e o filho Luigi Abras Lorenzetti, 31, partiram na tarde de sexta-feira, 9, em direção ao Parque Nacional do Jalapão, no Tocantins, bem no coração do Brasil. Eles estão em duas motos idênticas modelo Triumph Tiger X60 de 800 cilindradas. A previsão é que a viagem dure três semanas. Pai e filho conseguiram sair em férias ao mesmo tempo, o que facilitou a aventura. Luigi é médico em São Paulo.

José Roberto, o “Beto”, não gosta de falar em “aventura”. Ele diz que se aventurar é sair sem rumo — e sem o mínimo de estrutura — pelas estradas, mas a viagem com o filho estava sendo planejada minuciosamente há meses. A dupla teve o cuidado até de fazer reservas de pousadas e hotéis ao longo do caminho. Claro que a bagagem das motocicletas inclui uma barraca. Afinal, estão prontos para qualquer emergência.

A família, na verdade, adora esportes radicais. A irmã de Luigi, a advogada Marcela, não aprecia muito viajar sobre duas rodas. Porém, neste final de semana ela está em Ilha Bela, no litoral de São Paulo, participando de um curso certificado de mergulho marítimo.

Não é a primeira vez que pai e filho rasgam as estradas do Brasil. Eles já exploraram todo o litoral paulista, conheceram a Bahia e até fizeram o chamado “caminho do ouro”, com as históricas trilhas abertas nos séculos XVII e XVIII entre Minas Gerais, São Paulo e Paraty, no Rio de Janeiro.

A chuva não é ameaça. “Na verdade, é bom que chova na região das trilhas, pois a areia acaba se assentando e melhora a estabilidade da moto”, conta Luigi. Pai e filho, por sinal, fizeram um curso especial de direção de motos em trilhas. “A preparação é muito longa e requer de tudo. É muito diferente, por exemplo, de ir de Santa Cruz a Porto Alegre”, afirmou Beto Lorenzetti.

Desta vez, o destino também é longo e há trechos enormes sem sinal de civilização. É por isso que a bagagem é pesada. Além de barraca, há um kit de primeiros socorros, uma maleta para pequenos consertos nas motos — incluindo reparos em pneus furados — e garrafas térmicas para água. “Alimentos são raros, mas costumamos levar barras de cereais e biscoitos”, disse Luigi.

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Paraísos turísticos

Pai e filho deixaram Santa Cruz do Rio Pardo sob um tempo que sugeria chuva. A previsão era dormir após 500 quilômetros vencidos. Em seguida, um novo descanso na histórica Goiás Velho. “É a terra de Cora Coralina”, lembra Beto, sugerindo que o passeio, além da natureza, busca também o conhecimento.

Depois, de Brasília a dupla segue para a Chapada dos Veadeiros, em Alto Paraíso de Goiás, onde o Parque Nacional oferece desfiladeiros e formações de cristais de quartzo. Na região, há cachoeiras com até 100 metros de altura, além de vegetação exuberante. Com um cenário deste, Beto e Luigi devem ficar no local até quarta-feira.

É a partir daí que o trajeto fica mais sério, rumo a Jalapão. As motos, neste trecho mais demorado, vão passar por trilhas e percorrer longos caminhos sem postos de combustíveis ou pousadas. De vez em quando, vão passar por algum povoado. É quando, segundo Beto, costumam receber o calor receptivo dos moradores.

“É engraçado, mas quando alguém chega nestes pequenos lugarejos de moto, as pessoas se aproximam. É difícil você comer sozinho num restaurante. Certa vez, o próprio dono nos fez companhia. Em outra oportunidade, um morador ofereceu sua casa para a pernoite. É incrível”, diz José Roberto.

As motos têm espaços improvisados para carregar tanta bagagem; há até uma mangueira para emergência

Os dois garantem que preferem viajar em duas rodas. “Carro é mais complicado. A moto consegue vencer alguns trechos com mais facilidade”, conta Luigi. “Com a moto, a viagem é muito diferente, você consegue ‘sentir’ os trajetos e os locais”, complementa Beto.

A paixão do pai surgiu na adolescência. Comprou sua primeira moto aos 18 anos. Levava tanto o filho na garupa que Luigi também se apaixonou pelas duas rodas. Aliás, mais do que o próprio pai. O segredo, dizem, é obedecer as leis de trânsito e manter uma velocidade constante, sem abusos.

Depois do centro do Brasil, eles planejam fazer uma viagem internacional. O sonho é Atacama, no Chile, alcançando o extremo Sul do planeta. Claro, é o último ponto que pode ser visitado com motocicletas. “A gente está sempre planejando uma viagem”, afirma Beto Lorenzetti. E nem o asfalto é o limite. 

 

  • Publicado na edição impressa de 11 de outubro de 2020