Aos oito anos, Helena já leu quase 300 livros

Helena em meio a vários livros que leu nos últimos tempos (Foto: André Fleury)

Aluna exemplar, ela coleciona notas 10, lê o mesmo livro várias vezes e leva os preferidos para as viagens

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Ela só tem oito anos. Mas já leu mais livros do que muita gente adulta. Helena Gasparino Garrocini tem uma estante repleta de livros infantis. Ao todo, são quase 300. Leu todos eles, e ainda pretende ler muito mais.

É um hábito que se tornou paixão. Filha de André Garrocini e Elisandra Gasparino, Helena se interessa por histórias desde quando ainda era bebê. Os livros, por sinal, foram comprados antes mesmo de ela nascer. “E depois nós começamos a contar histórias para ela”, explica a mãe Elisandra.

Os livros, claro, eram adequados para a idade de Helena. “Ela gostava bastante de manusear os livros. Então a gente comprava os de capa dura, com páginas diferentes”, conta Elisandra.

O tempo passou e, aos cinco anos de idade, Helena aprendeu a ler. Foi quando, por conta própria, quis saborear as histórias que ouvia dos pais. Foi amor à primeira vista. “Ela aproveitou os livros que já tinha e ainda ganhou outros vários”, explica a mãe. Os papéis se inverteram, e foi Helena quem passou a ler para Elisandra.

A pequena Helena Gasparino, em frente à coleção, segura o livro de Malala, seu preferido (Foto: André Fleury)

Helena nasceu em Curitiba, no Paraná, e se mudou com a família para Santa Cruz do Rio Pardo em 2016. Atualmente, estuda no colégio Objetivo. É uma das melhores alunas da turma. No primeiro bimestre, por exemplo, tirou apenas notas 10. Gosta de matemática e também de português.

Elisandra atribui a inteligência da filha ao gosto que Helena mantém pela leitura. “Até porque a leitura proporciona conhecimento e raciocínio lógico. Isso ajuda em todas as áreas”, diz Elisandra, que considera como “missão” levar o hábito de leitura para a filha.

Um dos hobbies de Helena, aliás, é ler o mesmo livro duas, três ou quatro vezes. Nas viagens em família, pode-se esquecer tudo, menos os livros. “Ela sempre separa alguns que quer ler”, conta Elisandra.

O livro que despertou a paixão de Helena pela leitura foi “O Macaco Tocador de Violão”. Ela gostou tanto da história, e leu tantas vezes o livro, que decorou todos os detalhes do enredo.

“O Macaco Tocador de Violão” foi escrito por Juliana Basile e Marco Hailer e conta a história de um macaco que perdeu um pedaço do rabo depois que uma charrete passou por cima dele. O animalzinho sai em busca de um rabo novo e, entre várias aventuras, ganhou um violão. E Helena lembra de cada aventura pela qual o macaco passou.

Mas Helena admite que, atualmente, está gostando mesmo é do livro de Malala, a ativista paquistanesa que conquistou o mundo lutando por seus direitos num país — o Paquistão — onde mulheres eram (e ainda são, muitas vezes) impedidas até mesmo de estudar.

Claro que é uma adaptação para a idade dela. Mas Helena gostou tanto do livro que decorou até mesmo a frase que achou mais marcante. “Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”, diz a pequena. “Essa é a frase da minha vida”, garante.


Helena ao lado dos pais André Garrocini e Elisandra Gasparino; ao fundo, uma lousa com o alerta: ‘livros!’ (Foto: André Fleury)

Rotina de Helena
não tem o celular

Helena Gasparino não tem celular próprio e gosta mesmo é do papel. Vez ou outra, no entanto, empresta o celular da mãe Elisandra. Mas na maioria das vezes nem é para brincar com joguinhos eletrônicos, e sim quando quer gravar vídeos para seu canal no YouTube, onde conta histórias de livros que leu (veja na página 8).

“Não é a hora ainda de ela ter o celular próprio”, diz Elisandra. Não se trata de mera opinião: vários estudos dizem exatamente o mesmo. Helena não sente falta do celular. Mas admite que, se tivesse um aparelho, passaria horas em frente às telinhas. “Então é melhor que não tenha”, brinca a mãe.

Leitora voraz, Helena também divide o tempo com os estudos e cultura. Até pouco tempo atrás, admite, dedicava mais tempo diário aos livros. Mas as aulas voltaram — mesmo que online — e as tarefas de casa consomem parte do dia de Helena.

Ao final da noite, porém, ela ainda consegue ler seus livros antes de dormir. Quando a pandemia ainda não havia começado, Helena também fazia parte do coral infantil do Centro Cultural Special Dog.

A família também tem o hábito de visitar museus. A última exposição foi “Tarsila do Amaral para Crianças”, no edifício Farol Santander, em São Paulo. Também foram ao Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand — o Masp —, onde acontecia uma exposição de Tarsila, mas para adultos. Helena, claro, preferiu a primeira.
Sua estante repleta de livros tem títulos variados. Afinal, conforme Helena cresce, seus interesses também mudam. Os títulos vão de Ninoca — a ratinha que tem vários amigos animais e divide um sítio com todos eles —, passam por Ruth Rocha, uma das mais conceituadas escritoras infantis, e vão até Clarice Lispector e Pedro Bandeira.

Além disso, a pequena Helena também está por dentro das tendências atuais. Ilan Brenman, autor de “Até as princesas soltam pum” é um de seus favoritos. Apesar disso, ela não tem um gênero preferido. Gosta mesmo é dos livros personalizados, de cuja história ela mesma participa.

Feitos por encomenda, as editoras colocam seu nome e até foto nas ilustrações. Um exemplar que estampa sua escrivaninha é “Helena em uma pequena grande aventura”. A personagem usa até os mesmos óculos de Helena.


Helena mostra livro e figurino: tudo azul

Leitora voraz e contadora de histórias!

Já deu para perceber que Helena lê. Mas o que nem todo mundo sabe é que ela também é uma ótima contadora de histórias. Quando descobriu este dom resolveu, ao lado dos pais, criar o canal “Helena lê e conta histórias para você”, que está disponível no youtube. Grava todos os vídeos em seu quarto. Quem edita e publica os vídeos é o pai, André. O cenário escolhido para as filmagens foi em frente à estante que existe no quarto.

A ideia do canal no youtube partiu de um tio. “Eu estava brincando de escolinha e gravando vídeos. Minha mãe mandou um deles para meu tio, que sugeriu que eu virasse youtuber”, lembra Helena. Ela gostou tanto que grava toda semana.

A conta foi criada há três meses. Já tem mais de 20 vídeos, todos com temas diferentes. O primeiro deles é uma apresentação. “Eu vou compartilhar livros, histórias e dicas para você. Espero que goste!”, diz Helena.

Apesar de não ter seu próprio celular, Helena se dá muito bem em frente às câmeras. Não liga, por exemplo, de gravar durante 10 ou 15 minutos. O canal conta até mesmo com seções. Uma delas é “leituras curtinhas”, onde mostra livros fáceis e rápidos de serem lidos.

O canal conta com 105 inscritos. Recentemente, aliás, decidiu fazer uma maratona de vídeos sobre livros. A primeira metragem tem 10 minutos, e o desafio colocado pela jovem youtuber é atingir 45 curtidas.

Ela lê em voz alta para o público, conta e explica histórias como “Ninoca” e “O menino e o mar”. Planeja tudo, desde o roteiro até o visual. No vídeo em que explica “O menino e o mar”, por exemplo, Helena estava produzida e vestida de azul. “É minha cor preferida”, cita.

 

  • Publicado no Suplemento DEBATINHO de 11 de outubro de 2020