Orlando Villas Bôas, o nosso herói

Sertanista que nasceu em Santa Cruz foi indicado duas vezes ao maior prêmio mundial, o Nobel

 

A casa em que Orlando nasceu em Santa Cruz, no ano de 1914, que hoje pertence à família Britto

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Você sabia que uma das personalidades mais famosas do nosso planeta nasceu em Santa Cruz do Rio Pardo? A má notícia é que ele nunca recebeu uma homenagem à altura de sua importância dos políticos da cidade. Reverenciado em todo o mundo como um dos maiores defensores dos índios e do Meio Ambiente, Orlando Villas Bôas veio ao mundo em 1914 numa casa da rua Coronel Emigdio Piedade, na esquina com a praça Major Antônio Aloe. O imóvel hoje pertence à família Britto e está totalmente preservado. Em vida, Orlando visitou várias vezes a casa.

Durante muitos anos, a cidade de Botucatu reivindicava ser a terra natal de Orlando. Esta informação, inclusive, estava em vários sites na internet, mas o próprio sertanista escreveu uma autobiografia, só publicada após sua morte, que começava assim: “Eu nasci em Santa Cruz do Rio Pardo”. Já os irmãos Leonardo e Cláudio nasceram, de fato, em Botucatu.

O homem apaixonado pela defesa dos índios nasceu em Santa Cruz do Rio Pardo

Até hoje, porém, há publicações dizendo que Orlando é de Botucatu. No site da Assembleia Legislativa do Estado, por exemplo, consta a informação equivocada. E olhe que Santa Cruz do Rio Pardo tem hoje um deputado estadual.

Mas o que fez Orlando de tão importante para o mundo? Foi ele, juntamente com os irmãos Leonardo e Cláudio, que ajudou a preservar o índio, a desbravar o oeste brasileiro, a fundar inúmeras cidades, abrir estradas ou trilhas e ainda iniciou o debate sobre a necessidade de garantir o Meio Ambiente. Na época, nem se falava nisso.

Nos anos 1980, Orlando é visto nas ruas de Santa Cruz, numa passagem rápida pela cidade

Em 1940, o governo de Getúlio Vargas percebeu que havia o desafio de ocupar o Centro-Oeste brasileiro, onde não havia estradas e nem vias de acesso, como estradas ou aeroportos. Foi lançada, então, a “Expedição Roncador-Xingu” e tudo indicava que a operação seria violenta contra os índios que habitavam naquela enorme região. Era a “Marcha para o Oeste”.

Orlando e Leonardo se interessaram e foram se inscrever. Foram recusados, pois tinham alto nível de conhecimento. No entanto, não desistiram. Pouco tempo depois, voltaram barbudos, sujos e fingindo serem analfabetos. Assim, Orlando foi auxiliar de pedreiro enquanto os irmãos Leonardo e Cláudio se empenharam na enxada. Não demorou muito tempo, porém, e os Villas Bôas estavam no comando da expedição.

No total, eles passaram 35 anos no Brasil central. O primeiro contato com os índios foi assustador, com flechas voando de todos os lados. Aos poucos, porém, os irmãos ganharam a amizade dos índios e transmitiram confiança. Orlando seguia o lema do Marechal Rondon, um dos desbravadores do País: “Morrer se preciso; matar, nunca”.

Assim era Orlando Villas Bôas. Quando muito jovem, foi expulso do Exército porque dizia só obedecer “as ordens que julgava certas”. Foi com este espírito pacificador que o santa-cruzense se encantou pelos índios e sua cultura. Assim, lutou até o fim de sua vida para que o índio não fosse explorado e mantivesse seu espaço. Afinal, eles estavam no Brasil quando aqui chegou o português Pedro Álvares Cabral.

A possível “invasão branca” das terras indígenas preocupava Orlando. Em 1961, os irmãos Villas Bôas conseguiram criar, com autorização do presidente Jânio Quadros, o Parque Nacional do Xingu, que até hoje é a mais importante reserva indígena das Américas, com um território equivalente ao tamanho da França e Inglaterra juntas. Com a ajuda do sociólogo Darcy Ribeiro, a criação do parque visava a preservação da fauna, da flora, além da cultura e da população indígena.

Orlando e seus irmãos são reconhecidos mundialmente pela luta a favor dos índios

Ao mesmo tempo, salvaram vidas e garantiram a sobrevivência de várias nações indígenas. Aliás, eles também pacificaram as tribos com o grande espaço do Parque Nacional do Xingu, já que, antes da chegada dos Villas Bôas, elas viviam em conflitos.

A saga dos irmãos foi um marco mundial. Nos anos de 1971 e 1976, Cláudio e Orlando foram indicados ao Prêmio Nobel da Paz, a maior honraria destinada às mais importantes personalidades do mundo.

Orlando ganhou inúmeras homenagens por todo o mundo. Recebeu a medalha do Fundador da “Royal Geographical Society”, as mais altas condecorações do governo brasileiro e ainda foi cinco vezes “Doutor Honoris Causa” de universidades do Brasil e do exterior. Escreveu 14 livros e sobreviveu a 250 episódios de malária. Em 2004, os Correios lançaram um selo comemorativo a Orlando, num evento realizado no “Museu Ernesto Bertoldi” em Santa Cruz do Rio Pardo.

Morreu em dezembro de 2002, talvez desiludido por não ter feito mais pelos índios. Deixou a viúva Marina Villas Bôas e os filhos Noel e Orlando Filho. Além, é claro, do verdadeiro oásis que ajudou a criar no Centro-Oeste brasileiro, o Parque Nacional do Xingu. 

 

  • Publicado no DEBATINHO de 11 de outubro de 2020