Alerta: pandemia reduziu a prevenção ao câncer de mama

O médico mastologista Leonardo Fleury Orlandini, durante evento da "Clínica Imagem" em Santa Cruz

Alerta é de médico mastologista do Hospital do Câncer de Ourinhos e pode ter consequências em 2021

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O médico mastologista Leonardo Fleury Orlandini, que atua no Hospital do Câncer de Ourinhos desde 2012, admite que o longo período provocado pela pandemia de coronavírus reduziu o número de exames preventivos. Ele salientou, entretanto, que este índice já vinha caindo a cada ano. “Quanto mais cedo for o diagnóstico, maior a chance de cura. Mas a cada ano o SUS faz menos exames do que o necessário”, explicou.

Segundo Leonardo, em 2019 o SUS realizou de 20% a 30% do número ideal de mamografias. “Estamos muito longe de atingir a meta”, alertou. De acordo com o médico, há muitos fatores que devem ser levados em consideração, como poucos recursos, política inadequada e aparelhos trabalhando abaixo da capacidade.

“Há casos de pacientes que precisam se locomover de 60 a 100 quilômetros para realizar um exame no interior. Isto significa uma grande dificuldade”, explicou. Na região, segundo Fleury, o problema foi amenizado com a implantação do Hospital do Câncer de Ourinhos, que já é uma referência em todo o Estado. “Mas os dados nacionais são preocupantes”, afirmou.

Na pandemia, de acordo com o especialista, muitas mulheres deixaram de realizar os exames, o que agravou os índices das mamografias. “Com certeza, os índices pioraram. Em seis meses, muitas pacientes não fizeram exames. Mas este reflexo só será sentido no próximo ano. São mulheres que podem estar com tumores avançados e nem sabemos se haverá suporte suficiente para atender a todas elas”, disse.

Leonardo Fleury diz que as campanhas do “Outubro Rosa” são importantes para reverter este quadro. “O diagnóstico precoce ainda é a melhor arma contra o câncer, significando 90% de chance para a cura. Isto faz toda a diferença no primeiro estágio”, explicou. Ele lembra que, em alguns casos, a mulher não precisa sequer passar pela quimioterapia. “No estágio três, em que a doença está avançada, menos da metade tem chance de cura”.

Os exames preventivos também podem evitar cirurgias mais radicais. “Hoje, sempre que possível recorremos à cirurgia conservadora, retirando apenas uma parte. A retirada total só acontece quando não há como preservar o local”, disse.

O médico também afirmou que, embora os exames preventivos sejam recomendados a partir dos 40 anos, o número de mulheres jovens acometidas pela doença é intrigante. “De acordo com dados mundiais, o Brasil possui mais casos em mulheres jovens do que os Estados Unidos e Europa. Ninguém sabe exatamente o motivo, mas pode ser algo genético ou ambiental. Enquanto nos EUA o índice de jovens com câncer gira em torno de 4% a 5%, no Brasil este índice alcança de 10% a 15%”, disse.

Segundo Leonardo, assim como acontece com as parceiras do homem na campanha “novembro azul”, o companheiro deve ser o grande incentivador dos exames preventivos. “Sempre dizem que a educação em casa é importante. Neste sentido, é importante o apoio do homem para que a mulher não deixe de fazer a prevenção”, alertou.

O médico diz que a medicina evolui a cada ano e o câncer deixou de ser um diagnóstico de morte. “A grande novidade atualmente são as imunoterapias. No entanto, a tecnologia contempla mais o combate a doenças mais avançadas, especialmente quando há metástase. Mas também sempre há novos medicamentos para os estágios iniciais. Isto quer dizer que há tantas possibilidades de tratamento que não há mais desculpa para a mulher não se prevenir”, disse.

O autoexame, conhecido como “toque”, de acordo com o médico, é importante para a mulher perceber alguma mudança em seu corpo. “No entanto, não substitui de forma alguma a mamografia”, afirmou.

Além dos exames de mamografia, o médico lembra que também são importantes outros fatores, principalmente o estilo de vida. “É fundamental a prática de exercícios físicos, dieta saudável com vegetais e fibras e evitar a obesidade”, disse. Segundo Leonardo, há estudos que relacionam o sedentarismo e a obesidade ao aumento do risco.

Além disso, o álcool é mais perigoso do que o fumo no surgimento de algum tumor. “O fumo não está diretamente relacionado ao câncer de mama. No entanto, três a seis doses por semana e já começa a aumentar o risco”, alertou. 

 

  • Publicado na edição impressa de 18 de outubro de 2020