Sodré, o governador ‘santa-cruzense’

Abreu Sodré em 1970 visitando as obras de construção da escola “Genésio Boamorte”, em Santa Cruz

O pai, Francisco, foi chefe político de Santa Cruz; o filho se tornou deputado, governador e ministro das Relações Exteriores do Brasil

 

O ex-prefeito Francisco Abreu Sodré

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Caçula do primeiro “prefeito” de Santa Cruz do Rio Pardo, Roberto Costa de Abreu Sodré foi o único homem dos 12 filhos de Francisco que não nasceu na cidade. Mas se considerava “quase” um santa-cruzense, tanto que dedicou várias páginas de seu livro, “No Espelho do Tempo”, às origens da família em Santa Cruz e nas demoradas férias de julho e de finais de ano na fazenda durante a “meninice e juventude”. Roberto costumava contar que a família sempre se interessou pela vida pública. E seguiu os mesmos passos.

O pai de Roberto, Francisco de Paula Abreu Sodré, não era propriamente o chefe do clã. Em seu livro, Roberto conta que o avô paterno, Francisco Baltazar de Abreu Sodré, foi o primeiro chefe dos Sodré e parlamentar atuante nos últimos anos do Império brasileiro. Além disso, ele lembra que o avô materno, Antonio da Costa Júnior — irmão de Augusto José da Costa, o primeiro juiz de Santa Cruz do Rio Pardo — foi deputado constituinte na elaboração da primeira Constituição da República, em 1891.

Francisco veio jovem para Santa Cruz. Era médico formado no Rio de Janeiro e começou a atender num lugarejo sem hospital e sem recursos. Segundo narra Roberto em seu livro, o pai percorria a região em seu trole (espécie de carroça), apenas com a maleta de medicamentos. Desde cedo, teve a preocupação com a falta da ferrovia na chamada “boca do sertão” do Estado de São Paulo, que separava a chamada civilização das “terras desconhecidas e habitadas por índios”.

Em 1970, em Santa Cruz, o governador Sodré assina no palanque liberação de verbas, ao lado do prefeito Onofre

Francisco se tornou político em Santa Cruz e liderou a facção republicana após a morte do coronel Batista Botelho, seu desafeto. Ficou, porém, poucos anos no poder, até que outro desafeto, o coronel Tonico Lista, se tornou o mais poderoso chefe político da história de Santa Cruz do Rio Pardo. Os Sodré, então, foram deixando a cidade.

No entanto, ele foi importante para a chegada dos trilhos da Sorocabana, através de um ramal ferroviário — custeado pelo município — ligando Santa Cruz a Bernardino de Campos. Na época da implantação, Francisco Sodré era uma espécie de “prefeito” da cidade, já que o cargo não existia naqueles tempos.

Fotografia publicada em seu livro, “No Espelho do Tempo”, mostra a família no final da década de 1910, com Francisco Sodré, a mulher Idalina e todos os 12 filhos. Roberto é o caçula que está em pé, à esquerda

Quando a família deixou Santa Cruz, Francisco e Idalina já tinham sete filhos. Em São Paulo, nasceram outros cinco, entre eles o mais novo, Roberto Costa de Abreu Sodré. Foi no dia 21 de junho de 1918, uma data que ficou marcada para o caçula da família. Afinal, coincidiu com a grande geada que aconteceu naquele ano.

Segundo o livro de Roberto, o cafezal da fazenda Santo Antonio, em Santa Cruz do Rio Pardo, foi inteiramente destruído, provocando uma crise financeira na família. Francisco vendeu algumas propriedades e foi morar durante algum tempo na chácara da família de Idalina. Depois, claro, se recuperou.

NAS RUAS — Em 1970, no centenário de S. Cruz, Sodré caminha com o prefeito Onofre e é saudado pelo povo

E Roberto Abreu Sodré cresceu e se formou advogado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP). Como universitário, foi preso em 1936 por protestar contra a ditadura de Vargas. Em 1945, decidiu entrar de vez na política e foi um dos fundadores da UDN. Cinco anos depois, já era deputado estadual, mantendo o mandato por mais duas legislaturas. Em 1960, foi o presidente da Assembleia Legislativa.

Dois anos depois, Abreu Sodré começou a participar da conspiração contra o governo de João Goulart. Em 1964, quando o golpe militar depôs Goulart, Sodré estava no Rio de Janeiro disposto a defender o Palácio Guanabara de um suposto ataque de soldados fiéis a Jango. A partir daí, vieram os primeiros atos institucionais, a extinção dos partidos, a implantação do bipartidarismo e o fim das eleições diretas para governador e prefeitos das capitais.

Sodré na manchete da ‘Folha” de 1970, no final de seu mandato como governador de São Paulo e perto da posse de Laudo Natel

Em 1966, figurou em primeiro na lista para a indicação ao governo paulista, entregue ao marechal Castello Branco, o primeiro presidente do regime militar. Nomeado, tomou posse em 1967, após ter o nome referendado pela Assembleia Legislativa, e ficou até março de 1971.

No governo, Sodré iniciou a “Rodovia do Oeste” (hoje Castello Branco), criou as empresas que resultariam na Sabesp, reestruturou a antiga Força Pública como Polícia Militar, criou o Centro Estadual Paula Souza e a Fundação Padre Anchieta, que deu origem à TV Cultura estatal.

Roberto se tornou crítico do regime militar e, nos anos 1980, defendeu a volta das eleições diretas para presidente. Em 1986, foi nomeado ministro das Relações Exteriores pelo presidente José Sarney, tendo sido protagonista do reatamento das relações diplomáticas com Cuba. Foi seu derradeiro cargo político. Em seus últimos anos, se dedicou à advocacia e às atividades empresariais. Morreu em 1999, aos 82 anos.


“AZUIS” — No Icaiçara Clube, Sodré é recebido por correligionários e Onofre Rosa

Presença de Sodré em
Santa Cruz é marcante

Roberto Costa de Abreu Sodré foi influente em Santa Cruz do Rio Pardo. Quando deputado, era ligado ao partido que ajudou a fundar, a UDN, que na cidade tinha entre seus líderes Alziro Souza Santos, José Osiris “Biju” Piedade e Omar Ferreira. Em 1958, quando a UDN se uniu aos dissidentes de Leônidas Camarinha, criou-se o grupo dos “azuis”, com a vinda de Onofre Rosa, Lúcio Casanova, Reynaldo Zanoni, Anísio Zacura e outros.

Pois Sodré sentia-se em casa quando era recebido, já como governador, pelos “azuis”. Era comum ele se hospedar na residência do farmacêutico Alziro Souza Santos. Passou várias vezes pelo Icaiçara Clube e acompanhava a política municipal. Voltou à cidade em 1988 para proferir uma palestra, já como ministro das Relações Exteriores.

Na cidade, Sodré descerra placa do Fórum, com o nome do tio Augusto Costa

Em seu livro “No Espelho do Tempo”, Roberto conta que o pai, quando médico em Santa Cruz do Rio Pardo, fazia de tudo, de partos à extração de balas. “Era comum, pois a nossa Santa Cruz vivia segundo os usos e costumes das regiões de fronteira da civilização”, escreveu.

Em suas memórias, Sodré diz que passava três meses do ano na fazenda “Santo Antônio”, em Santa Cruz, cuja sede era de madeira. “Tínhamos como obrigação uma hora diária de leitura. O resto do tempo era dividido entre caçadas aos passarinhos, passeios pela redondeza e o acompanhamento de todas as atividades da fazenda, incluindo os cuidados no viveiro de mudas, as carpas nas entre-linhas da plantação do café e a secagem no terreiro”.

Mas na família surgiram outros vultos históricos. Um deles é Antônio Carlos de Abreu Sodré, que Roberto dizia que teria uma “vida ainda mais brilhante”, não fosse “a injustiça da morte prematura” do irmão. Antônio Carlos, afinal, foi militante político na faculdade de Direito do Largo São Francisco, deputado federal constituinte e signatário da Constituição de 1934. Mas esta é uma outra história a ser contada. 

 

  • Publicado na edição impressa de 18 de outubro de 2020