Franco Catalano: ‘Filhos da pandemia’

Filhos da pandemia

 

Franco Catalano

CULTURA Com o afrouxamento das restrições contra o Covid-19 já vemos os bares e restaurantes retomando o movimento, as pessoas se exercitando nas ruas e academias e, em Londrina (onde vivo), até eventos como casamentos e festas de aniversário estão liberados. Respeitando as regras, é claro.

Como não sou de ferro, dia destes fui jantar em um restaurante. Lá estavam um casal e sua filha, um neném lindo de quase oito meses de idade. Posso não agradar a todas as pessoas, mas com os nenéns meu charme nunca falha. Bastou me sentar para ela começar a fazer gracejos enquanto me olhava sem nenhuma vergonha. Também não resisti aos encantos da pequenina e retribui as caretas. Em dado momento a mãe notou nossa interação e começamos a conversar. Aquela era a primeira vez que ambas saiam de casa desde o começo da pandemia. Por causa da licença maternidade e o início do isolamento social, eventos que se sobrepuseram na vida delas, elas estiveram sem contato com o mundo externo todo este tempo!

Daí entendi a agitação que tomava conta dela, mesmo passando das 22h. Tudo era novidade. Nunca havia visto um cachorro, nem uma árvore, nem muitos adultos. Nas palavras de sua mãe: era uma filha da Pandemia.

Outro episódio também me fez pensar nos efeitos — além dos nefastos que os conscientes já sabem — que este episódio virulento trouxe: no prédio em que vivo, em meados de maio, a sindicância decidiu demitir a antiga zeladora e contratar outra. Naturalmente, desde então, sempre fui cordial e educado com ela, inclusive puxando papo nos dias menos corridos. Recentemente, voltando de seu almoço e esquecendo-se da máscara, fato que passou despercebido por mim, encontrei-a no hall do térreo. Vi que estava de uniforme e, sem pensar duas vezes, me apresentei:

— Prazer, sou o Franco do 111.

Um olhar de estranheza tomou conta de seu rosto enquanto respondia:

— Sim eu sei.

— Como sabe?

Naquele instante percebeu que estava sem a máscara, sacou-a de seu bolso e vestiu o acessório que agora é indispensável.

— Sou eu, a Dulce.

Me dei conta que nunca havia visto seu rosto, ao menos não 100% dele.

 

* Franco Catalano é santa-cruzense, estudou História da Arte em Madrid e é arquiteto