Pascoalino: ‘A pomba que caiu do céu’

A pomba que caiu do céu

 

Pascoalino S. Azords

CRÔNICA Há uma semana vieram bater na minha porta. Era de tardezinha. Desci rapidamente e encontrei, bem embaixo da janela da sala, atordoada, uma legítima pomba-do-ar. Fosse uma dessas pombas de igreja, eu a teria deixado à própria sorte e sob a proteção dos santos, para a alegria dos muitos gatos da vizinhança. Mas era uma juriti verdadeira, dessas que migraram para as cidades por falta de mato ou fazendas de café onde viviam muito bem, sem a gente e sem vidraças. A pomba galega parecia cansada da viagem que a trouxe do Córgo da Pimenta ou do Córrego do Possidônio até a minha casa. E, como a hora já era duvidosa de parda, resolvi lhe dar abrigo. Como na minha casa não entra gaiola, acomodei-a num engradado plástico sem o xadrez divisório das garrafas com água num pires para ela passar a noite. No dia seguinte, pela manhã, quando descobri o engradado, a pomba não quis saber de escapar. Tinha a aparência saudável e uma postura de miss, como é próprio das juritis adultas. Decerto tinha dormido melhor do que eu. Então, tendo que sair para o serviço, deixei a pomba entre as plantas do quintal com uma cumbuquinha d’ água para ela passar o dia. De volta do trabalho, meu relacionamento com a pomba repetiu o dia anterior. Incapaz de voar, ela se deixava aprisionar com facilidade. E então, passava a noite no engradado vazio de cerveja para, na manhã seguinte, voltar ao fundo do quintal. Logo percebi que o seu cantinho preferido era embaixo do pé de manacá, onde, além da água, eu também debulhava milho verde, sementes de girassol e algum arroz de ontem.

Apesar dos meus cuidados, a pomba parecia não ver diferença entre eu e um moleque do sítio Guarantã armado de estilingue até os dentes. Olhava-me com desconfiança e um olho de esfinge. Arisca, nada tinha de seus primos distantes, o serviçal pombo-correio e o cordial pombo de igreja. Para não espanta-la com a minha paparicagem de passarinheiro improvisado, eu me movia quase em câmara lenta, e acabei passando mais tempo que de costume nos fundos da casa. Ali, tive tempo para pensar muita bobagem. Comecei reforçando meu desinteresse nessa história de encontrar vida em outros planetas. Esnobado pela pomba, lembrei-me do kit que a Nasa mandou para o espaço com o propósito de facilitar contatos imediatos. Uma bíblia, uma bola de basebol, uma lata de Coca Cola, um cartão de crédito, um filme do Chaplin e um CD com a gravação de My Way na voz de Frank Sinatra. Sem querer entrar no mérito da seleção dos produtos daquela “cesta de natal”, eu me perguntava: e se daqui a milhões de anos a encomenda chegar às mãos de seres bípedes, simétricos e até meio parecidinhos com a gente, mas que ainda nem tenham inventado nem o disco de vinil?

Olhando para essa amarga pomba, terráquea como eu, mas incapaz de perceber minhas intenções, eu me pergunto: para que ir tão longe à procura de novos mal entendidos? E se depois de tanto procurar, de tanto viajar pelas galáxias durante anos-luz, lá num canto obscuro do universo, encontrássemos um negro, um judeu, um palmeirense, um ateu? Em que língua iríamos nos desentender? Quanto tempo levaríamos para querer aniquilar com armas químicas ou homens-bomba aqueles que tanto buscamos e que por tanto tempo conseguiram se esconder de nós no céu?

Depois de alguns dias, eu já estava torcendo para que a pomba gostasse do trato, da vista que a casa tem do entardecer, e decidisse mudar para cá; quem sabe constituir uma família no meu quintal. Mas, depois de uma semana no mais absoluto silêncio, ela partiu como veio, sem avisar. Quem sabe voou para o Embaixo da Serra, para o Quebra-Cabaça, atrás dos seus dias restantes. E eu fiquei aqui, na mesma. Sem saber se lhe fiz um bem ou se lhe fiz um mal.

 

  • Publicada originalmente em 07/03/2010 e reproduzida na edição impressa de 18 de outubro de 2020