Zanata: ‘Tempos indecisos’

Tempos indecisos

 

João Zanata Neto

Hoje, segundo a mais abalizada equipe meteorológica, haveria chuva no período da tarde. Mas, como muita gente constatou, muitas pessoas carregaram o guarda-chuva em vão, ou seja, não caiu nenhuma gota do céu. A mais aparelhada previsão do tempo também comporta uma imprecisão. Nem por isto, merecem o descrédito. Apesar de expressar alguns padrões climáticos, a natureza ainda é indomável e quem se atreve a compreendê-la é merecedor de honrarias pela extrema complexidade dos seus fenômenos.

Estamos cientes desde cedo que a humanidade caminha dentro das suas possibilidades num exercício constante de improvisação e disto resulta a sua perenidade. Reparem que nem os nossos elaborados guarda-chuvas são capazes de suportar as tempestades. Aliás, sob os ventos fortes, eles se tornam nossos inimigos e ainda possuem um inadequado para-raios. Este fato curioso pode parecer humor sarcástico, entanto, é um exemplo da improvisação mais duradoura da raça humana.

Para quem não tem paixão ou disposição para ser um doutor em climatologia, pode se tornar um celebre artesão dos guarda-chuvas. Muitas coisas, com boa vontade e criatividade podem ser melhoradas. Vou dar um exemplo: o parafuso é o prego que não solta fácil. É simples e genial, não é? Agora que você percebeu o contexto da coisa, vamos continuar falando do guarda-chuva.

Quando disse que alguém poderia ser um celebre artesão dos guarda-chuvas, é porque ele é como um abridor de latas, um leque ou um lápis, ou seja, é uma coisa simples que atende a um princípio básico.

Você bem sabe ou pode deduzir com muita facilidade que uma casa ou uma choupana é um aprimoramento de um guarda-chuva, pois suporta até certo ponto as tempestades. Contudo, todo mundo sabe que este aprimoramento não é portátil e o velho guarda-chuva continua sendo o mais funcional.

Você que é esperto, rápido no gatilho, já está pronto para dizer que o automóvel ou a carruagem supera o guarda-chuva, pois é de certo modo portátil. Em certo aspecto, você tem razão, mas o guarda-chuva é mais econômico que tais engenhocas.

Diante das considerações estarrecedoras e esclarecedoras, não é preciso ir mais longe. Talvez, agora, você concorde que é mais fácil ser um doutor em climatologia do que aprimorador de guarda-chuvas.

As coisas simples têm princípios bem conhecidos e as complexidades dos fenômenos climáticos ainda não possuem o total conhecimento dos seus princípios. Talvez, você discorde desta afirmação porque lhe ensinaram desde pequeno o ciclo das chuvas. Mas, se você é curioso e estudioso vai descobrir que, nas montanhas altas, a neve derretida dá início aos rios e ao ciclo das águas e em algumas montanhas altas onde não há neve a água surge sem explicações e forma rios caudalosos como o rio Amazonas e também gera o ciclo das águas.

Então, não é fácil mudar o guarda-chuva e nem entender o clima. Contudo, não quero confundir. Pensamos e repensamos esta questão deverás molhada apenas para fazer o seguinte paralelo: imagine que você deseja ser um político. Aí eu lhe pergunto que tipo de político você será: um guarda-chuva, uma choupana ou uma carruagem? 

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”

 

  • Publicado na edição impressa de 13 de novembro de 2020