Associação ‘Adas’ é reforço para ‘Pastoral da Sobriedade’ de Santa Cruz do Rio Pardo

Da esquerda à direita, André Francisco Alves, Fábio Henrique de Almeida, Karla Pinheiro e Suellen Simão

A ‘Adas’ é formada por integrantes da Pastoral da Sobridade e por ex-dependentes

 

Padre David fez uma celebração para marcar o início das atividades

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A “Pastoral da Sobridade” existe há 22 anos no Brasil, criado pelo bispo católico dom Irineu Danelon, após perder dois sobrinhos para as drogas. Em Santa Cruz do Rio Pardo, há seis anos existe uma equipe que conduz a pastoral na luta para levar a necessidade da sobriedade pela evangelização. O trabalho se espalhou para cidades da região e agora ganhou um grande reforço com a criação da Adas — Associação dos Amigos Sóbrios da Pastoral da Sobriedade da Paróquia São Benedito de Santa Cruz do Rio Pardo.

A nova entidade fica na rua Francisco Gonzaga de Oliveira, na vila Mathias, na casa de um ex-dependente químico. Ela pretende ser um núcleo para o trabalho posterior de dependentes que conseguem se livrar do vício. “O problema é que, após a internação, muitos não conseguem emprego. Há uma discriminação muito grande e, por isso, alguns têm recaídas”, conta Karla Aparecida Pinheiro Pedro, 43, coordenadora diocesana da Pastoral da Sobriedade em toda a região.

A Adas já funciona como uma oficina. Na pequena casa, por exemplo, são fabricados móveis e farto artesanato. Os produtos são vendidos no local e em breve estarão expostos em outros locais da cidade.

A artesã Suellen mostra os trabalhos que produz para a associação Adas

Segundo Karla, a pastoral de Santa Cruz já atendeu muitas famílias da cidade e região. “Temos cerca de 400 pessoas que já passaram pela entidade, sendo 90% homens, dependentes de todos os tipos de drogas e vícios.

A ação católica já atendeu, segundo Karla, até um homem viciado em sexo. “A gente pensou que isto não existia, mas tivemos um caso. Há outras pessoas, por exemplo, viciadas em jogos”, contou. Mas a maioria é dependente do crack, geralmente iniciada pelo álcool. “O mais triste é que muitos começam em casa, incentivados pelos próprios pais”, explicou. “O crack é o fundo do poço”, ressaltou a coordenadora.

A Pastoral da Sobriedade funciona no salão da Igreja de São Benedito, inclusive capacitando agentes para o trabalho. Hoje, dez membros são formados. As reuniões acontecem todas as segundas-feiras às 20h e têm, em média, 30 pessoas.

O movimento tem o apoio da secretaria de Saúde, que costuma encaminhar dependentes ou famílias para a pastoral. Karla conta que, um dia, foi avisada de que deveria atender uma família. Quase no horário, viu uma amiga na igreja e se surpreendeu. Ela procurava ajuda para a filha, hoje internada.

Fábio fabrica móveis que são vendidos pela associação

A pastoral tem parcerias com comunidades que internam dependentes. “A situação atual é tão dramática que antigamente eram as famílias que primeiramente procuravam ajuda. Hoje, os próprios dependentes se aproximam procurando ajuda para deixar o vício”, disse. “Eles estão perdendo o controle e a dignidade”, explicou.

A internação não é apenas transportar o dependente para uma clínica ou comunidade. Antes, é preciso passar por uma avaliação psicológica, ter a vacinação em dia e fazer exames de sífilis, hepatite viral, HIV e, atualmente, covid-19.

A Adas, inaugurada há duas semanas, é uma associação de apoio ao dependente que consegue se livrar do vício. “O problema é que eles passam nove meses internados e depois não isolados pela sociedade quando retornam”, disse Karla.

Suellen Simão, 35, nunca usou drogas, mas sofreu com o ex-marido, dependente químico que hoje está internado porque teve uma recaída. É pela experiência de vida que ela resolveu ajudar a Adas fazendo artesanato. Artesã, Suellen abraçou a causa, aproveitou o período de desempregada e foi à luta. Hoje, é ela quem faz vasos floridos feitos com vidro e EVA.


André Francisco Alves se diz vitorioso após largar 20 anos de uso de drogas

‘Troquei até o botijão por crack’

André Francisco Alves, 41, pode se considerar um vitorioso. Passou 20 anos usando drogas e hoje cedeu sua casa para a sede da Adas. “Já bebi até etanol e usei todo tipo de droga. Meu botijão de gás era acorrentado, mas eu consegui retirá-lo para trocar por uma pedra de crack. Perdi tudo, inclusive o emprego, e decidi mudar minha vida”, afirmou.

Ele se reabilitou, mas teve uma recaída porque causa da solidão e do afastamento das pessoas. “Há três anos, eu andava segurança a calça porque emagreci demais. Hoje, sou agente da pastoral e ajudo pessoas”, diz, orgulhoso. André largou até o vício do cigarro.

Seu papel na Adas é a coordenação geral. “O problema é após a reabilitação. Eu saí em busca de emprego em vão. Com a associação, vamos trabalhar e gerar renda para a entidade”.

Fábio Henrique de Almeida, 25, usou droga a partir dos 13 anos. “Os amigos oferecem, mas usa quem quer. E foi onde fui perdendo minha família e me distanciando de todos. Fui preso aos 18 anos acusado de tráfico e logo em seguida perdi meu pai, experimentando minha maior dor”, contou. Fábio começou na maconha e logo estava usando cocaína.

Uma tia o apresentou à Pastoral da Sobriedade e Fábio disse que sentiu Deus no coração. Hoje sem vícios, é o artesão que fabrica os móveis na Adas e é devoto católito. Seu sonho é fazer o curso de agente.

 

  • Publicado na edição impressa de 22 de novembro de 2020