Pascoalino S. Azords: ‘Koyaanisqatsi’

Koyaanisqatsi

 

Pascoalino S. Azords

O mundo anda muito mudado. E para sentir na própria pele, você não precisa testar toda uma linha de protetores solares. E também não precisa ir às praias do Oceano Índico atrás de um tsunami para ver. Existem pacotes turísticos que, por muito menos, podem te deixar ilhado ali no Rio de Janeiro mesmo, sem os inconvenientes do idioma, sem precisar tirar passaporte.

Mesmo que você não tenha disposição para viajar ou ligar a TV, acredite: o mundo mudou, e muito! Na Inglaterra, ativistas tentam na Justiça um mandado de prisão para enquadrar Bento 16, o primeiro Papa a ter um iPod, quando sua santidade pousar em Londres. Na Austrália, para aproveitar a reincidência de uma praga bíblica, criaram a pizza com sabor de gafanhoto; e tem gente jurando que pretende continuar comendo esse grilo crocante mesmo quando a praga passar. No Maranhão, grandes produtores de soja e arroz decidiram se unir para comprar alguns milímetros de chuva artificial. No mar da Nova Zelândia, um polvo agarrou com seu tentáculo a câmera de um turista americano. Detalhe: até ontem, o polvo era tido como o mais idiota dos animais do planeta, mais burro do que o próprio burro! Pois já está dando chapéu em turista americano!

Na minha infância o pecador se ajoelhava do lado de fora do confessionário. Nas grandes datas do calendário cristão, a gente formava fila para confessar nossas indecências, como comer carne na quaresma, dizer palavrão num dia santo de guarda, sonhar com a namorada do colega… Já pensou se fosse monsenhor Luiz Marques Barbosa, de Arapiraca, quem estivesse do outro lado do confessionário me ouvindo? Arapiraca, naquele tempo, era a cidade do time alagoano que não ganhava de ninguém na loteria esportiva. Hoje está no noticiário do mundo inteiro graças a uma dinâmica dupla de pedófilos: monsenhores Luiz Marques Barbosa e Raimundo Gomes. Depois de pintar o sete com os coroinhas mais bonitinhos da paróquia, eles torraram R$ 40 mil tentando subornar um dos meninos que tinha filmado um aperitivo de tudo num dos tantos encontros amorosos do monsenhor Barbosa. Os R$ 40 mil, evidentemente, tinham sido recolhidos ao longo de inúmeras missas, a guisa de dízimo. E ainda sobrava dízimo para os pederastas de batina bancarem uma casa de praia para suas orgias paroquiais. Enfim: mesmo pagando os 40 mil, o vídeo pornô está na internet para quem quiser ver.

Bem, tudo isso hoje é de conhecimento geral da nação. Desse assunto se ocuparão os cronistas bem remunerados da grande imprensa. Eu aqui, nesse discreto cantinho do DEBATE, não vou apedrejar ninguém – eu torço pro time da Maria Madalena. Porém, como a crônica ainda está curta, quero reiterar que o mundo mudou muito. Veja se não: assistindo ao vídeo em que monsenhor Barbosa, 82 anos, protagoniza um clássico 69 com um coroinha, vê-se num aparador ao lado da cama algumas imagens de santos. Poxa! O sexo oral ali rolando solto em todas as línguas e posições, e ele, monsenhor, nem se deu o cuidado de virar os santos pra parede!

É ou não é pra desacorçoar?

 

* Publicada em 25/04/2010 e reproduzida na edição impressa de 22 de novembro de 2020