Zanata: ‘Nobre questão’

Nobre questão

 

João Zanata Neto

Não sou Maquiavel. Não posso dar conselhos ao rei. Falta-me o conviver palaciano. Não sei quais rumores são articulados entre as paredes marmoreadas. Que intrigas e sortilégios parecem encontrar terra fecunda entre tais convivas?

Ah, meu caro. Como sou humilde diante de você. Você que é a grande farsa da realeza, decerto me abjeta pela inocência incoerente. Há algo mais inservível do que a honestidade em seu reino?

Não sou um artífice das guerras. Que armas e estratégias eu poderia oferecer em troca de algumas moedas? Não sei que inimigos rondam as suas fortalezas. Que cobiças e invejas reluzem nos olhos dos seus cortesãos?

Ah, meu senhor. Como sou inofensivo diante de você. Você que é a força bruta deste império, decerto me despreza pela placidez indesejável. Há algo mais detestável do que a paz em seu reino?

Não sou bufão de castelos. Que anedota eu poderia lhe contar, majestade? Não sei que rimas e piruetas contentam o gosto da realeza. Que piadas e trocadilhos tem o condão de não ofender a sua inteligência?

Ah, meu bom rei. Como sou enfadonho ao seu ânimo. Você que é a grande autoridade real, decerto me abomina pela sinceridade desconcertante. Há algo mais inservível do que a verdade em seu castelo?

Não sou Paracelso. Não possuo a maestria dos alquimistas. Não posso remediar as chagas do rei. Que encantos e profecias dar-lhe-ão a eternidade? Que palavras ocultas hão de afastar o mau agouro do seu reino?

Ah, meu nobre senhor. Como sou inservível aos seus assombros. Você que é feito deus, decerto me rejeita pelo ceticismo desencantador. Há algo mais inservível que a racionalidade em seu palácio?

Não sou um general das mil batalhas. Que conselhos eu poderia dar contra os seus inimigos? Que soldados e muralhas hão de proteger as suas riquezas? Que fronteiras e territórios hão de ser afrontados e saqueados? Que tributos e recompensas hão de satisfazer as suas intenções?

Ah, meu senhor. Como sou covarde diante de você. Você que é o conquistador, decerto me despreza pela amistosidade incondicionada. Há algo mais indesejado que a falta de cobiça em seu império?

Não sou o carrasco do cadafalso. Que justiça poderia fazer contra os seus desafetos? Não sei que espadas e forcas aplacariam a sua vontade de vingança? Que torturas e decapitações satisfazem a sua sede sanguinária? Que execução tem o condão de não abalar o seu senso de justiça?

Ah, meu justo rei. Como sou ponderoso diante de suas decisões. Você que é o supremo julgador, decerto ficará irado pelo perdão suplicado. Há algo mais inservível do que a humanização em seu reino?

Contudo, se você ouvir o seu povo, poderia ver a igualdade, a liberdade e a fraternidade dos oprimidos. Embora, possa achar que a fraqueza e a bondade se transformem na ruína do seu reino, está enganado, pois são estas as virtudes que imortalizam a sua nobre figura.

 

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

 

  • Publicado na edição impressa de 22 de novembro de 2020