A tragédia da contaminação da ‘Ajax’ de Bauru é exposta em livro

Trabalhadores da Ajax protestam contra salários atrasados, pouco antes da fábrica ter a falência decretada

Escritora denuncia crime ambiental que deixou sequelas em muitos moradores, inclusive num bebê que tinha sete meses

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Foi uma contaminação silenciosa, para a qual os poderes públicos e a imprensa só começaram a dar um destaque maior quando a tragédia estava consumada. A fábrica de baterias da Ajax em Bauru já contaminava funcionários e moradores próximos desde os anos 1980, quando o então prefeito Tuga Angerami, através do secretário de Saúde David Capistrano, criou o Ambulatório do Trabalhador para tratar os doentes com saturnismo — a infecção por chumbo. Agora surge um livro — “Marcas do Chumbo: a história do Menino David”—, que expõe de vez a grande tragédia da contaminação provocada pela Ajax.

A escritora é Diva Fernandes, que mora em Bauru há 30 anos, mas nasceu e tem parentes em Espírito Santo do Turvo. Aliás, nasceu quando Espírito Santo ainda era distrito de Santa Cruz do Rio Pardo.

Diva é vizinha da família de David, um menino que começou a ter sinais de contaminação grave aos sete meses. Hoje aos 28 anos, ele tem sequelas neurológicas e é praticamente uma criança num corpo de homem.

Diva precisava de uma história. E ela chegou junto com novos vizinhos

É o primeiro livro de Diva, que há muitos anos é redatora independente. O desejo de escrever um livro a perseguia desde que morava na zona rural de Espírito Santo, mas Diva precisava de uma história. Quando a família de David conseguiu se afastar das proximidades da Ajax, virou vizinha da escritora. O livro, então, é mais do que a história triste do menino, uma obra que denuncia um crime praticamente impune.

“É um soco no estômago mesmo”, admite Diva, que sentiu-se mal em alguns momentos ao transpor a tragédia para o papel. “Fiquei até com febre”, conta. Foi difícil porque a escritora se familiarizou com todos os personagens, já que é vizinha da família.

Acima, vista aérea da fábrica da Ajax, denunciada pelo livro de Diva Fernandes pelos crimes na manipulação do chumbo

A Ajax surgiu em 1958 e foi a maior fábrica de baterias do interior paulista. Tinha o nome de “Acumuladores Ajax” e foi instalada no distrito industrial. Com o tempo, a cidade cresceu e os bairros ficaram muito perto da empresa, que passou a ser denunciada por irregularidades internas que provocavam o vazamento de chumbo.

A primeira denúncia aconteceu em 1985 e veio do Sindicato dos Metalúrgicos de Bauru, alertando o Ministério Público de que havia um número excessivo de trabalhadores doentes e possivelmente contaminados pelo material químico. Houve modificações no sistema de produção da indústria, mas as denúncias continuaram.

Em 2001, a Cetesb verificou que as emissões tóxicas da Ajax ultrapassavam 37 microgramas por metro cúbico de poluição, quando o tolerável era 1,5. Em 2002 o MP ajuizou uma ação civil pública que, uma década depois, condenou a indústria a pagar R$ 366 mil de indenização. O dinheiro foi repartido entre instituições assistenciais de Bauru.

Os problemas, porém, continuaram, e um amplo estudo em famílias que viviam perto da indústria comprovou que centenas de crianças estavam contaminadas pelo chumbo. Vários outros moradores também sofreram perda total ou parcial da capacidade laborativa. Muitos foram aposentados por invalidez. Segundo os mais antigos, à noite a fábrica expelia uma densa fumaça que cobria todos os bairros.

Em 2010, uma agência divulgou laudo informando que o lençol freático de Bauru estava contaminado com metais pesados. Uma das causas seria a raspagem do solo das vias públicas dos bairros, cujo material — quase 300 caminhões de terra – foi depositado no aterro sanitário, o que pode ter provocado a contaminação. A suposta “limpeza” fez parte de um acordo firmado entre a indústria e o Ministério Público.

Em 2013, a Ajax sofre nova condenação, desta vez no STJ, por expor moradores à contaminação por chumbo. A empresa entrou em recuperação judicial e começou a atrasar salários. Em 2015, teve a falência decretada. Desde então, trabalhadores e vítimas da contaminação aguardam o pagamento de indenização pelos prejuízos trabalhistas, ambientais e na saúde de muita gente.

Um deles é David Pereira, 28, que vive com os pais até hoje, primeiro numa casa a pouco mais de dois quilômetros da Ajax e, hoje, num bairro longe da fábrica. Ele é o personagem do livro de Diva Fernandes, embora não tenha sido a única criança contaminada com chumbo. Calcula-se que há mais de 350 crianças, além de adultos, com problemas de saúde ou lesões neurológicas provocadas pela contaminação.

Em sua obra, Diva exalta a fé dos pais do menino de, um dia, receber algum tipo de indenização para ajudar no tratamento do filho. O processo já foi julgado procedente em várias instâncias, condenando a Ajax a pagar algo em torno de R$ 6 milhões. “Ninguém nunca recebeu um tostão pelos danos causados. A mãe do David tem uma fé enorme, mas a gente sabe que dificilmente a família será indenizada”, disse a escritora.

O livro de Diva Fernandes sobre o drama da família do menino David

“Eu ouso dizer que toda a população de Bauru pode estar contaminada, já que lençol freático recebeu o chumbo”, disse Diva. Segundo ela, é um crime provocado pela manipulação irresponsável do metal que provavelmente ficará impune. “Meu livro é uma denúncia e, ao mesmo tempo, uma reflexão da fé de uma família e, principalmente, sobre o crime contra o Meio Ambiente que o Poder Público não deu importância no momento certo”, disse.

“Quando as autoridades perceberam, o estrago estava feito, sem possibilidade de reversão”, lamentou. Hoje, a sede da Ajax está lacrada e toda a área continua contaminada, com famílias morando ao redor.

O livro “Marcas do Chumbo — A História do Menino David” é uma produção independente da escritora Diva Fernandes e está à venda nas livrarias Jalovi, de Bauru ou na internet e nas plataformas de marketplace, nas lojas Submarino, Mercado Livre, Livro.com, Americanas e outras.

No início do mês, a obra foi lançada numa das unidades da Jalovi. Em fevereiro, Diva deverá participar de um lançamento do livro em Espírito Santo do Turvo, já que é considerada a primeira escritora nascida no município.


Contaminado pelo chumbo, David é uma criança em corpo adulto e toma 20 comprimidos todos os dias

David toma 20 remédios por dia e
família ainda luta por indenização

A escritora Diva Fernandes disse esperar que seu livro sobre o caso Ajax abra novamente a ferida que marcou Bauru durante décadas. “Quando eu comecei a escrever, esta tragédia já estava começando a ser esquecida. É realmente um soco no estômago de todo bauruense porque estamos morrendo e ninguém faz nada”, afirmou. “Mais do que refletir, é preciso agir”, insistiu.

Diva disse que o sonho da mãe de David é que as pessoas conheçam esta história, especialmente os mais jovens, que desconhecem a dimensão verdadeira da tragédia. É um episódio que não pode ser apagado e deve se transformar num alerta para o futuro.

O livro de Diva Fernandes narra os problemas com o menino desde os sete meses de idade. O bebê não conseguia ingerir nenhum alimento e tinha uma diarreia crônica. Os pais procuraram dezenas de especialistas em todos os cantos, mas nenhum diagnóstico conclusivo foi fechado.

Na época, a família ainda morava a pouco mais de dois quilômetros da indústria Ajax, mas não havia informações ou ações das autoridades sobre a contaminação. Um médico recomendou, então, que David fosse alimentado com leite de cabra. Porém, mal sabiam os pais que aquilo iria piorar a saúde do menino.

A família recorreu ao leite de cabra produzido por uma chácara nas proximidades. Era justamente onde a Ajax enterrava os metais pesados e plantava grama, por onde as cabras pastavam. Um estudo feito anos mais tarde anunciou que leite, ovos e até hortaliças produzidas em propriedades próximas da Ajax estavam contaminados. Aves e vários animais foram retirados ou sacrificados, inclusive as cabras que alimentavam David.

É por isso que os problemas de David não cessavam. Desconfiado, um médico indicou um exame específico feito em um fio de cabelo, num laboratório dos Estados Unidos. Foi quando descobriu-se que o garoto estava contaminado por chumbo, alumínio e outros metais pesados. O diagnóstico só saiu em 1999, quando David já tinha seis anos.

A família conseguiu sair do bairro e fixar residência longe da área da Ajax. Mas já era tarde para David. Com problemas neurológicos, ele não se desenvolveu intelectualmente e sua idade mental ainda é de uma criança.

O jovem precisa de muitos medicamentos — toma cerca de 20 por dia — e a família ainda sonha com a indenização para custear o tratamento e proporcionar uma vida digna a David. “O cérebro do bebê foi corroído pelo chumbo. Imagine, então, os funcionários da Ajax, que não receberam seus direitos e ainda ficaram com inúmeras sequelas”, questiona Diva Fernandes.

O tempo de degradação de uma bateria no Meio Ambiente é avaliado em 500 anos. No entanto, a decomposição do metal pesado é considerada infinita ou milhões de anos. David não teve chance. Somente para reconhecer o dano à saúde do menino a Justiça demorou 16 anos. E o processo ainda não terminou.

  • Publicado na edição impressa de 25 de dezembro de 2020
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