Franco Catalano: ‘Comer com os olhos’

Comer com os olhos

Franco Catalano *

COTIDIANO  Durante a semana que antecedeu o natal, encomendamos uma barca de sushis e sashimis de um cozinheiro santacruzense. Ao colocarmos o pedido recém retirado sobre a mesa, ao redor da qual estavam os familiares mais próximos, um expressão de apetite e admiração surgiu nos rostos famintos. — Que capricho! — afirmou um deles. — Parecem jóias! — enfatizou.

De fato, a atenção e amor depositados em cada pequeno bocado era visível aos olhos e às bocas (que logo se encheram com os rolinhos de alga, arroz e peixe). Pensei na paciência e vocação necessárias para executar tão minucioso ofício. Tal qual o ourives debruçado sobre o ouro bruto.

Em um estágio que realizei, diante do nível de detalhes dedicado ao projeto de uma cliente, minha chefe disse: “Ela é detalhista por que é cirurgiã. Trabalha com precisão de milímetros”. Naquele momento a frase não me impactou tanto, mas ao longo da minha carreira tenho percebido como a importância dos detalhes — e das escalas — varia de pessoa para pessoa.

O joalheiro, o dentista, o estilista que costura, o sushiman… de todos eles lhes é exigido um nível de perfeição elevado, e os que chegam a este patamar prosperam. Os artefatos resultantes de seu esmero transparecem cada segundo a eles dedicados. Ao menos aos olhos que olham com atenção, como os que admiraram as jóias comestíveis que foram uma alegria para a mente e para o paladar.

 

Franco Catalano é santa-cruzense, estudou História da Arte em Madrid e é arquiteto

 

  • Publicado na edição impressa de 1º de janeiro de 2021