Pascoalino S. Azords: ‘Vazio para o Ano Novo’

Vazio para o Ano Novo

Pascoalino S. Azords

CULTURA  O ano começou latindo lá no fundo do quintal, do lado de lá do muro que me separa do mundo, começando pelo vizinho à esquerda. Sempre tem alguém achando que ainda não está bom de cachorro, que ainda cabe mais um… O ano começa latindo baixinho. É quase o choro de um recém-nascido que teima acordado na hora errada. Pois, ao contrário dos outros que latem o dia todo e de todos os lados, esse jovem cão só late quando eu preciso dormir! Vencido pelo cachorro, troco a cama pela escrivaninha do escritório do fundo, onde em duas gavetas se comprimem os restos do ano que passou: boletos bancários, canhotos de talões de cheque, demonstrativos de pagamentos, contas de toda sorte, cartas, fotos… É preciso abrir espaço para os papeis do novo ano. (Por que não aprendo com as gavetas a me esvaziar das coisas inúteis que já passaram?)

Abro a primeira gaveta para balanço. Reencontro a velha lupa e a agenda de 1978 onde faço anotações nas páginas em branco dos dias perdidos. A lupa e a agenda são as únicas certezas nessa mesa, as únicas coisas dali que não têm receio de perder o lugar. De uma eu dependo para enxergar as miudezas da vida, em outra eu releio frases que ao longo desses trinta e poucos anos foram deixando evaporar o sentido.

29/07/1993 — Calcinhas comestíveis. Porto Alegre — A confecção Raro Prazer está colocando no mercado um produto com um toque de exotismo. “Existem outras calcinhas importadas, produzidas em gelatina, mas o que estamos fazendo aqui é bem diferente”, afirma a publicitária M.P., 30 anos, uma das sócias da Raro Prazer. A versão gaúcha das calcinhas comestíveis é um modelo fio dental feita com rendas de fitas de cetim. A peça é arrematada na parte frontal com um bombom de chocolate em forma de coração e recheado com cointreau. Preço: 3 mil reais.

02/11/2010 — A UOL Notícias convocou uma astróloga, um babalorixá, um tarólogo, uma médium que interpreta a borra de café e um cientista político para desvendar as palavras de despedida de José Serra, derrotado na última corrida presidencial: “Não é um adeus, é um até logo”.

(sem data) O caviar Almas, iraniano, é feito com ovas de beluga, um dos mais antigos sobreviventes dos dinossauros, espécie de peixe tão rara que sua captura anual não excede cem unidades. Preço da latinha em Londres: 25.000 dólares.
07h50 — Saindo para trabalhar, quase atropelo o amante fiel e pontual de uma vizinha.

Sexta-feira no Boliche – Kiss Cover – Baixista cospe fogo. Guitarrista sola com guitarra em fumaça. Vocalista quebra a guitarra no final do show. Chuva de confetes. Pirotecnia indoor.

(sem data) A Finlândia é o primeiro país a realizar um campeonato de arremesso de telefones celulares.

Os números da fé: 99% dos brasileiros acreditam em Deus; 83% acreditam na vida eterna no paraíso (quanto mais rico e escolarizado, mais o brasileiro acredita na vida após a morte); 69% acreditam em punição e recompensa após a morte; 51% acreditam no diabo; 34% acreditam que irão direto pro céu; 11% acreditam que passarão um período de penitência no purgatório; 0% acredita que irá pro inferno.

(sem data) Galo, técnico cego do time infantil da Portuguesinha.

Diário Popular de 29/8/1991 — Fim do drama de Silvio Santos: fé em Deus e pagamento de resgate libertam Patrícia Abravanel.

Jornal Agora São Paulo – Silvio Santos bate Lula no 2º turno por conta da exposição na mídia quando sequestrado e do seu programa Casa dos Artistas.

Final do campeonato mundial de futebol de amputados: Brasil 1 X 0 Rússia

Patrícia atende em sua residência, faz previsões há mais de 20 anos, é conhecedora dos búzios, cartas e tarot. Pode orientar-lhe com seus problemas por mais difíceis que sejam: problemas comerciais, fraqueza sexual (ambos os sexos), vícios em geral, falta de sorte, doenças incuráveis, falta de lucros em sua empresa ou lavoura, problemas na justiça, etc. Faz e desfaz qualquer tipo de trabalho, traz a pessoa amada de volta aos seus pés. Acredite, esse simples panfleto mudará sua vida!

08/01/2008 – Quem vigia a casa do guarda-noturno?

(sem data) Chove diamantes em Plutão.

O dia amanhece por partes. O sol dá no último andar do prédio torto antes de chegar à minha casa. Uma gaveta da escrivaninha já está quase vazia do ano que passou e o cãozinho, súbito, parou de chorar. Sim, porque até os cães uma hora se cansam.

  • Publicada em 09/01/2011 e reproduzida na edição impressa de 1º de janeiro de 2020