Santa Cruz do Rio Pardo perde Mércio de Souza, que morreu aos 74 anos

SEMPRE VOLUNTÁRIO - Mércio ficou na direção da Santa Casa durante quarenta anos

Ex-provedor da Santa Casa de Misericórdia, onde atuou por mais de 40 anos, ele lutava contra um câncer

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Mércio de Souza morreu na quinta-feira, 7, em São Paulo, onde estava internado para tratamento de um câncer. Auditor fiscal aposentado, ele foi várias vezes provedor da Santa Casa de Misericórdia de Santa Cruz do Rio Pardo e ainda era membro de sua diretoria. Mércio tinha 74 anos e também foi atuante como voluntário em várias instituições e clubes da cidade.

Filho de comerciantes, Mércio trabalhou desde criança numa época em que não havia restrição. Foi engraxate e sapateiro até conseguir um emprego num escritório de contabilidade no início da adolescência. Se formou técnico em contabilidade na antiga “Escola de Comércio XX de Janeiro” e depois cursou várias faculdades. Aos 19 anos, já era dono do próprio escritório, que se transformou num dos mais respeitados da cidade.

No início dos anos 80, participando de solenidade na Santa Casa de Misericórdia

Mércio foi sócio-proprietário do escritório de contabilidade “Lex Celmer”, que funcionava na rua Conselheiro Dantas. Alguns anos depois, aprovado em concurso público, ele vendeu o estabelecimento e assumiu a função de auditor fiscal, cargo no qual se aposentou.

Mércio de Souza sempre foi uma personalidade de destaque na imprensa local e regional. Na área social, ele foi presidente do Rotary Club de Santa Cruz do Rio Pardo e um de seus mais antigos integrantes. Souza também presidiu o Icaiçara Clube e foi membro da diretoria durante décadas. Ainda adolescente e já com experiência no setor, foi ele quem reorganizou a contabilidade do clube.

Mas foi na Santa Casa de Misericórdia que Mércio se encontrou, sendo aquele que serviu voluntariamente ao hospital de Santa Cruz durante mais tempo – mais de 40 anos. Ele foi o provedor e presidente da instituição durante vários mandatos, algumas vezes reconduzido a contragosto, a pedido de empresários ou políticos.

Mércio se juntou aos empresários Pedro Renófio e José Maria Santos para administrar a Santa Casa imediatamente após a saída das irmãs dominicanas que comandavam o hospital havia muitos anos. Era um novo desafio na vida do auditor — e continuou sendo durante décadas.

Como presidente do Icaiçara, Mércio coroa a Rainha do clube em baile

No cargo, Mércio sabia que iria administrar crises. E nisso ele se mostrou extremamente competente. O ex-provedor, aliás, tinha contatos com autoridades do governo federal e de São Paulo, além de políticos que poderiam ajudar o hospital. Durante anos, Mércio foi aquele “chato” que vivia atrás dos deputados em busca de recursos. Em Brasília, era conhecido até mesmo no Ministério da Saúde.

Foi com seu jeito calmo e conciliador que Mércio de Souza conseguiu renegociar dívidas milionárias da Santa Casa. Em vários momentos, ele praticamente “salvou” o hospital da insolvência com soluções criativas, às vezes “trocando” dívidas com juros pesados por empréstimos bancários quase subsidiários. Foi reconhecido como um diretor que efetivamente resolvia os problemas.

Mércio também atuou muitas vezes nas crises internas do hospital. Era ele o conciliador que sempre conseguia amenizar os conflitos entre diretoria, funcionários e médicos.

A sinceridade era uma de suas características. No início dos anos 1980, por exemplo, ele acabava de participar de uma cerimônia de entrega de um cheque do governo do Estado à instituição, na presença do prefeito Aniceto Gonçalves e um secretário do governo paulista. Posou para fotos recebendo o cheque, deu entrevistas e agradeceu os recursos. Depois, contou a jornalistas que o cheque, na verdade, era um simples papel feito especialmente para a solenidade. “Tomara que eles cumpram a promessa e depositem o dinheiro. Caso contrário, vou contar tudo”, disse, rindo.

Depois de mais de 40 anos à frente da Santa Casa, Mércio se cansou e pediu para sair. Na crise iniciada há dois anos, que culminou com a intervenção municipal no hospital, Mércio de Souza foi novamente lembrado para assumir o antigo posto. No entanto, ele já estaria com problemas de saúde.

Mércio conviveu com vários prefeitos, mas lutou pela Santa Casa; na foto, durante negociação com Otacílio Parras no primeiro mandato do ex-prefeito

Na política, Mércio sempre foi discreto. Embora historicamente ligado aos “azuis”, ele sabia que precisava de parceiros de qualquer grupo para conseguir administrar a Santa Casa. Assim, dialogava sem problemas com qualquer prefeito, vereadores ou deputados. Nunca quis se candidatar a nenhum cargo em Santa Cruz do Rio Pardo. Preferiu a filantropia.

Mércio de Souza também foi um dos fundadores da APAE da cidade, juntamente com a professora Noêmia Aloe e outros santa-cruzenses. Foi ainda corretor de imóveis e atuou no lançamento de vários bairros residenciais, como Bosque dos Eucaliptos e Itaipu.

O ex-provedor não resistiu ao tratamento contra um câncer e morreu na manhã de quinta-feira, 7, em São Paulo. Ele deixou a viúva Sueli Gentil de Souza, musicista que lecionou muitos anos no “Conservatório Musical Osvaldo Lacerda”, e os filhos Regina, Georgia, Fernando e Rafael.

O prefeito Diego Singolani (PSD) ficou consternado com a morte de Mércio. Em seu boletim diário sobre a pandemia, o prefeito fez questão de lembrar a amizade que tinha com o ex-provedor da Santa Casa. “Ele doou grande parte de sua vida em favor da saúde de Santa Cruz do Rio Pardo. Foi também meu primeiro patrão, aquele que me deu a oportunidade do primeiro emprego. Na verdade, foi um professor sempre dedicado à nossa Santa Casa e merece nossa eterna gratidão”, disse.

O Icaiçara Clube também fez uma homenagem a Mércio nas redes sociais.

Mércio foi sepultado na manhã de sexta-feira, 8, no Cemitério da Saudade, sob forte emoção de familiares e daqueles que o admiravam. 

 

  • Publicado na edição impressa de 10 de janeiro de 2021