CULTURA

Beto Magnani: "A capivara"

Beto Magnani:

Publicado em: 15 de fevereiro de 2021 às 00:38
Atualizado em: 29 de março de 2021 às 07:32

HISTÓRIAS DO MAGÚ

A capivara

Beto Magnani *

Da Equipe de Colaboradores

— Você viu o que aconteceu com a Dona Filomena?

— Não. O que houve?

— Caiu numa armadilha!

— Golpe de banco?

— Não. De Capivara mesmo.

— Como assim?

— Foi levar a neta na beira do rio e pisou na armadilha de Capivara.

— Mas pode caçar Capivara? Não é proibido?

— É. Mas o pessoal caça por aí.

— Coitada das Capivaras.

— A Dona Filomena ficou mais de duas horas pendurada de ponta cabeça.

— A carne é boa mesmo?

— A neta dela não conseguiu soltar.

— Nunca comi.

— Voltou sozinha para pedir ajuda pro Avô.

— Nunca nem tive vontade de experimentar.

— O avô estava jogando baralho no bar do seu João.

— Conheço muita gente que gosta.

— Fez ela esperar acabar o jogo para ouvir o que ela queria.

— Sei que tem de monte por aí.

— Ela contou o que aconteceu, mas ele não acreditou.

— Dizem que é o bicho mais tranquilo que existe. Sempre de boa.

— Os parceiros do jogo é que convenceram o velho a ir ver o que teria acontecido.

— Na verdade eu nunca vi uma Capivara de perto. Elas se escondem.

— Chegaram na beira do rio já era noite. A velha estava ainda pendurada de ponta cabeça.

— Tem lugar que é permitido caçar porque tem Capivara demais. A caça equilibra o meio ambiente. É o que dizem.

— Eles tiraram a velha de lá e destruíram a armadilha.

— Que bom! Nenhuma Capivara cairá mais.

— A dona Filomena estava bem. A neta foi uma heroína. Buscou ajuda a tempo.

— Na verdade eu até experimentaria um pedaço de carne se tivesse a oportunidade.

— Depois dessa ela nunca mais deixará de prestar atenção nas armadilhas.

— Acho que eu nunca tive um amigo caçador.

— No mato é preciso olhar para o chão sempre.

— Se eu tivesse, acho que já teria experimentado.

— Você não está nem aí para a dona Filomena? Só está pensando na Capivara!

— Eu não sei quem é essa Filomena que você está falando.

— Claro que você conhece a Filomena!

— Nunca vi.

— Filomena é aquela senhora que mora no final da sua rua. É sua vizinha desde que você nasceu.

— As Capivaras também moram por perto desde que nasci e, como eu já disse, eu não conheço.

— Como você não sabe quem é a dona Filomena!?

— Acho que nunca vi. Ela também deve viver escondida.

— Você que não olha para as pessoas!

— Prefiro olhar para o chão. Prestar atenção no caminho.

— Tem que levantar mais a cabeça quando sai de casa. Cumprimentar as pessoas que passam. Ser um pouco mais social vai te fazer bem.

— Estou de boa assim.

— Vai ser Capivara então!

— Se não fosse as armadilhas...

— Armadilha tem em todo lugar.

— Por isso olho para o chão. Presto atenção. O chão é o caminho.

Eu tinha ido buscar um pouco do chá de quebra pedra que nasce entre as raízes de uma arvore enorme perto do rio, quando ouvi a conversa. Não resisti. Sentados nas raízes, contemplavam a paisagem enquanto compartilhavam um cigarro. Não me viram. Fiquei meio escondido. De boa.

* Beto Magnani é ator e escritor



  • Publicado na edição impressa de 31 de janeiro de 2021


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